MJ continuará vivo por muito tempo. This is it.
http://www.youtube.com/watch?v=cyrkcz7msfY
Palavreio e me visito. Assim, me vejo.

Eis que o homem anda pelo velho e conhecido caminho, retorna de uma margem à qual tantas vezes recorre, na sua busca do que não sabe. Sempre ir e vir, movimento necessário.
Mas toda trilha caminha, diz a letra da música. Pra te encontrar. Te encontrar eu quero. Teu nomezinho carrego no meu patuá (é, diz a letra da música).
Sem esse querer pelo que os sentidos cheiram, olham, ouvem, lambem, tocam, ora, que graça teria o mundo? Pensamento humano, demasiado.
Pessoa, sentidos ardentes, paixões a latejar, será que a margem precisa atravessar? A maldade, a vaidade, amar a vida não é traição (ai, a letra, a melodia...). Para deleite dos sentidos, esta a força de estar vivo.
Ardência. Viver é agridoce.
Humanos, aqui estamos (sendo que o mundo termina logo ali): há algo melhor que tudo saborear?
Simples homem, sujeito a sua condição, na cadeia de seu corpo e dos desejos, negros olhos da Medusa (agora Lenine a me guiar).
Sabor e ar. Homem aqui, neste lado da margem. Sim, homem-sentidos. Vez por outra, também Buda na outra margem.
E a terra ciranda a rodar. Voz doce a (en)cantar. Eu, a escutar.
(Ouvindo a voz da amiga Marisa no seu Boa Hora, me deu uma vontade de escrever...)
E lá está Buda, no outro lado da margem, sereno. Eliminada, sem fim, a morte, paixões quebradas, saltou do oceano das misérias para a realização do Nirvana.
“O mundo de destinos miseráveis é comparável a um grande oceano, e os sentimentos e pensamentos dos seres vivos à ausência de margem. Eles são ignorantes e não sabem que as ondas crescentes de inconsciência são as causas da ilusão e das ações kármicas que resultam no ciclo infinito de nascimentos-e-mortes. Seus sofrimentos são inexauríveis e eles são incapazes de atravessar o oceano amargo da mortalidade. Portanto, isto é chamado de à margem.”
Assim, ele fala no seu não falar, silencioso. Assim, ele fala em sua-voz-em-outras, de Han-shan Te ch’ing ou qualquer mestre zen que ilumina.
Então, o homem, nesta margem. Imortal, porém igual, o que é nada, nada arrepio, nada vento no pescoço. Corre atrás de ecos, eles a perseguí-lo, pensa em livrar-se da morte. Ilusão, a vida. Infinito fragmento: estar, inconstante.
“O coração [mente] mencionado é o coração da grande sabedoria que alcança a outra margem. Não é o coração humano que os homens mundanos usam para pensar erroneamente. O homem ignorante não sabe que fundamentalmente possui o coração da luz brilhante da sabedoria.”
O coração mundano continua perseguindo luz. Nada sábio, pensa-se assim. Assim, pensa sentir. Pensando, há somente o mero inchaço de músculos bombando sangue. Do sentimento, apenas reconhecidas as sombras do apego, estimuladas pelas circunstâncias. Assim, pensamentos-sentimentos sucedendo-se, cadeia incessante.
Buda sorri.
“Apenas o Buddha estava consciente da verdadeira sabedoria fundamental que pode iluminar e quebrar o corpo e o coração dos cinco agregados, que são não-existentes e cuja substância é inteiramente vazia. Portanto, ele saltou da aparência e alcançou a outra margem instantaneamente, cruzando assim o oceano amargo."
(Avalokiteshvara, o bodhisattva da verdadeira liberdade. O corpo e os cinco agregados são apenas o vazio).
Buda sereno.
“Após esta realização, onde os sofrimentos não poderiam ser aniquilados? Onde os grilhões do karma seriam algemados? Onde estaria o argumento obstinado sobre o ego e a personalidade, sobre o certo e errado? Onde estaria a discriminação entre falha e sucesso, entre ganho e perda? E onde estariam os embaraços em coisas como riqueza e honra, pobreza e desonra?
Shariputra!
(Este era o nome de um discípulo do Buddha. Shari: pássaro com olhos penetrantes. A mãe dele tinha os mesmos olhos penetrantes e foi chamada com o nome do pássaro. Então o próprio nome dele era o filho [putra] de uma mulher que tinha olhos de shari. Entre os discípulos do Buddha, ele era o mais sábio.)
A forma não difere do vazio, nem o vazio da forma. A forma é idêntica ao vazio e o vazio é idêntico à forma. Assim também são os cinco agregados em relação ao vazio.”
Enganado, o homem no lado de cá, confinado em seu corpo, nada pode quanto ao nascer-morrer, nem quanto ao ir-e-vir. Também não pode quebrar a visão mundana de que a personalidade é permanente. Faz planos para um século sem realizar nada já, nem pode, com corpo ilusório, corpo submisso às quatro mudanças, nascimento, velhice, doença e morte, de momento a momento, sem interrupção, rumo ao resultado último, óbvia constatação de que é impermanente: retornará ao nada. E ainda não terá alcançado o limite da lei fundamental: o vazio absoluto. "A forma não difere do vazio.”
Com a contemplação errada e com a realização resultante de que a forma difere do vazio, o homem persegue trôpego em sua avidez por som, forma, riqueza e ganho, e completo apego às paixões do cinco desejos surgidos dos objetos dos cinco sentidos — às coisas vistas, ouvidas, cheiradas, degustadas ou tocadas.
E lá está Buda. Na outra margem.
“Shariputra, toda a existência é vazia, não há nem início nem fim, nem pureza nem mácula, nem crescimento ou declínio. Portanto, com o vazio, não há forma, não há agregados; não há olho, ouvido, nariz, língua, corpo e mente; não há forma, som, odor, sabor, toque e objeto do pensamento; não há conhecimento, ignorância, ilusão e fim da ilusão; não há sofrimento, declínio, morte, fim de sofrimento e morte; não há conhecimento, ganho e não-ganho.”
O homem do mundo mira a outra margem. Mente cheia, pesa. Anda na beira. Volta. Vai. Homem tropeça. Cai n’água. Esperneia engasgado. Buda mira. Sai da água, homem molhado. Olha ao redor. Ninguém vê – ainda bem – que vergonha. Desiste da água, demais oceano. Volta pelo mesmo caminho. Ego humilhado pesa mais. Mente cheia.
Buda ri. Fecha os olhos. Assim ele fala no seu não falar, silencioso.
(Preso em aspas, falou Han-shan Te-ch’ing. 1576-1623)



Bandeira e vulcão.
Atrás dele, oceano. Nos olhos, o cabo, molhada praia, escancarada mata.
A Melencolia de Dürer é o espelho que mais olho, pois devolve-me a imagem do que sou entre os quatro temperamentos alquímicos, com o necessário cadinho para as operações de fogo e, com ele, o mar, no horizonte.Tenho uma inclinação para longas viagens, contraditória forma de entrar
Atravessando o Atlântico encontrei Sirena.
Ah! Esquecia, ou para não afugentá-lo, meu tolerante leitor, omitia: Saturno é o meu planeta, aquele da revolução mais lenta, melancólico planeta. Tenho a inconveniente mania de olhar para dentro, o que é igual a encontrar dúvidas. Às vezes, desespero.
Hipócrates diria que ando em discrasia, já que Saturno tem me atormentado, fazendo com que meu baço secrete esta negra bílis que corre por minhas veias. Dessa mistura de sangue e negra bílis, meu organismo encontra-se febril, numa temperatura suficiente para cozer meu estado corporal. Ardo, então.
Eis minha síntese: álcool sou, onde a combinação dos princípios irreconciliáveis do fogo e da água, pode, enfim, ser atingida. Frescor e ardência, sendo que administrar esta alternância é minha rotina e luta, por meio das buscas de caminhos longínquos ou vestindo minha capa opaca, tecida nas moléculas do carbonato de lítio.
Mas dizia-lhe, atencioso leitor, que em minhas andanças, encontrei Sirena.
II
Pele clara, tinha um “eu-sei-muito-bem-o-que” de promessa nos olhos, cabelos curtos e compridos.
Andava com passos leves, parecia voar. O seu signo era o décimo primeiro do zodíaco, situado entre Capricórnio e Peixes e associado à constelação de Aquarius.
Tinha a mania de conceituar e explicar o universo. Parecia entendê-lo perfeitamente. Como também diziam dela – e de seu signo – tinha profundo respeito e amor pela liberdade, cooperação com a humanidade e um olhar criativo para o devir. Signo de ar. Daqueles que chegam ao fundo de si pela comunicação perfeita com o mundo. Mas tropeçam e quebram coisas pelo caminho.
Sua cor era azul e sua pedra, água marinha. Suas partes do corpo mais sensíveis: tornozelos e sistema nervoso.
Sim, confirmando as previsões astrológicas, ela era leve – tinha corrido muito e fazia isso sempre, primeiro percorrendo quilômetro de areias e chutando as ondas, depois correndo mundo como um Mercúrio com asas nos pés – e um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que era serena e plena de maresia, também vivia tempestades por dentro. Fortes ondas, naufrágios e pedaços jogados às pedras.
Dizem que isso a tornava assim, imprevisível. Vertia pérolas e conchas coloridas quando falava, mas serpentes marinhas em alguns momentos de silêncio. E elas saiam pelos olhos: queimavam algumas vezes.
Dizem, também, que isso a levou de nós. Suas tempestades por dentro. Seus maremotos incontroláveis. Tsunamis.
Certa vez andava eu pelo mundo, não lembro se ainda acreditava em sereias, e ela estava lá, na minha frente. Jamais voltaria a duvidar de que elas existissem.
Estava em Toledo, visitava a casa de Domenikos Theotocopoulus, El Greco.
Ela apareceu por perto, descendo uma viela de pedras amarelas. Me perguntou qualquer coisa, seu espanhol era muito ruim e sua voz, encantadora. Sim, literalmente. Um canto de sereia que me tirou de mim, mergulhei em suas marinhas profundidades. Naufraguei, tornei-me um casco de navio no fundo dela.
Bem, ela perguntou coisa qualquer, eu respondi coisa qualquer, só queria ouvi-la, precisava ouvi-la, enlouqueceria se não a ouvisse. Ela se ia, e meu destino de leão de fogo, filho do sol, era rastejar a seus pés, segui-la incodicional e loucamente.
Primeiro foi sua voz, depois seus cabelos, então longos – sim, ela os deixava crescerem muito, depois os cortava, a surpreender a todos. Sempre assim: longos e repentinamente curtos, previsivelmente assim, surpreendentemente assim.
Doido náufrago a segui, fiz seu roteiro, olhamos ambos para a Toledo sombria e plúmbea de El Greco. Ela olhava para aquele genial tormento e as lágrimas caiam, tremia um pouco, me parecia. Aquele era o sinal, percebi como deveria ser por dentro. Ou nada notei? Ora, um homem enfeitiçado não tem esse discernimento.
De lá, continuei a segui-la e foi entre armaduras e espadas que voltei a falar com ela. E nunca mais parei. Porque não podia deixar de ouvi-la. Jamais. Minhas falas só eram deixas para as suas. Sempre.
Ficamos juntos. Paramos na murada medieval, olhamos o rio em volta de Toledo. Seguimos adiante, íamos e vínhamos, eu sempre atrás dela, espadachim servil, Leão de Espanha domado em uma coleira dourada. Foi o que restou de meu brilho.
Certo dia, após uma noite em que mais uma vez tive orgasmos de me enroscar em seus cabelos, ela os cortou. Simples assim, cortou. Curtos, muito curtos, minimamente assim, curtos. Assim surpreendia, assim previsivelmente surpreendia, cada vez em que muitas vezes os cortava.
Então a seguia, mundo afora, mas nossa casa era lá, junto ao mar.
Eu, afogado desde o início.Ela, mar imenso, sereno a me afagar, maremoto a me matar.
Um dia, ela percebeu isso. Isso: que meus olhos tinham uma febre mortal por dentro. Amarela. Olhou para mim, ternamente. Nenhuma serpente nos olhos, mas nada falou.
Foi. Simplesmente assim, tão simples assim, se foi, assim, me deixou, assim. E eu, naquela casa. Só, naquela casa.
Sirena, a lua,o mar, os outros.
Lua crescente, quase cheia.
Cada vez que chego perto do mar, alguma coisa me chama nele, sei que um dia serei dele, seremos um, eu e mar, mar Sirena, Sirenamar.
Girar mundo pelo mar. Bem, basta a Terra, já que ir até a lua vai demorar um pouco mais. E deve ser muito chato por lá. Isso eu vou fazer: girar a Terra inteira, pelo mar! Poderia ir nadando, mas barcos e navios são confortos que me atraem. Voar também é uma possibilidade interessante, talvez pra quebrar algum galho. Mas o mar... Ah,o mar...
Só trocaria viagens marítimas por viagens de guarda-chuvas. Mas eles não me levam muito longe: daqui para ali, só isso.
Nossa, isso foi um grito? Foi um grito! O barulho vem do mar!
Tá, rápido, Sirena, corre, putz, não vejo nada, só queria ver o que está acontecendo, que escuro, nossa, tem gente lá dentro d’água, ai, é lá, não posso ir, sabe lá o que está acontecendo, ai! Água gelada! (pensa que ela não gostou? Adora este arrepio...) Ai, que medo, Deus me ajude, que eu faço, putz, vou lá, azar, vou lá, saia que me incomoda, droga, ai,ai.
(Prazer, medo e prazer, água fria, mão do mar, leva a sereia, leva a sereia...)
Pessoas, sim, são duas, barulho, água, sufoco, movimento, engasgue, AFOGAMENTO!
(Seus olhos enluarados já vêem claramente; seu corpo precisa ir, ela precisa fazer alguma coisa.)
- Pára! Larga! Laarga!
- Sai daqui!
- Solta!
(Luta, Sirena ataca: homem forte x mulher frágil. Muda o foco: pessoa sendo afogada – mulher 1- foge, busca a praia. Sirena – mulher 2 – quase afogada.)
- Maria! Vem cá! ( Muda o foco: homem segue mulher 1; mulher 2 abandonada no mar)
Meu mar... Me leva... Quem sabe agora me torno espuma, quem sabe água, quem sabe sal...
( Não adianta, Sirena ainda não é seixo, nem concha, nem peixe: o mar, suave, a devolve `a areia.)
Ai, dói tudo, ai,olha lá, são os dois! Se abraçando. É ela! Está abraçando o canalha! Ah, não! Vou lá!
- Escuta, ‘ta’ consolando o canalha?
- É o meu marido, não é canalha!
- Como assim? Ele estava tentando TE MATAR!
- E o que tu estavas fazendo lá na água?
- EU?! Tu tentavas matá-la, o que tu achas que EU estava fazendo lá?
- Qual é a tua, garota, que história é essa de ‘te meter’ em nossa vida?
- Vem, meu amor, vamos embora! Eu cuido de ti. Tem gente louca por aqui!
Os cabelos dela parecem cracas.
( Sai o casal. Sirena, pasma.)
Lua, lua, me busca, lua. Selenitas também serão assim?
Bela lua... Assim morrem as mulheres, nas mãos dos homens que protegem...
( Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 2008: “Corpo de mulher, carbonizado, é identificado pelo marido.”
A foto: marido desolado.Sirena sente um arrepio percorrendo sua coluna.