segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Inicia 2012. Visita constante do tempo - "Inseto Perseverante".

Eu, guria, em alguma praia da memória.

Chega o momento em que confrontar-se com a própria verdade temporal é inevitável. 
Basta passar em frente ao espelho, ou encontrar um velho amigo não visto há anos. 
Primeiro pensa-se: - Nossa, como envelheceu! - sem nos darmos conta de que somos o seu espelho, no qual ele se mira com o mesmo espanto.
Eis que tenho em mãos um livro do antropólogo Joël Candau e me deparo com este trecho do preâmbulo do seu "Memória e Identidade". Então entendo porque tenho tido tanta necessidade de remexer em velhas fotos.

"Somos sempre "condenados ao tempo", condição à qual não escapa nenhuma existência. O tempo "voraz" que segundo a segundo, como um inseto perseverante (Maeterlinck), devora mecânica e inexoravelmente toda vida, realizando assim sua obra de decomposição: o tempo presente, agonizante por essência (Borges inspirado em Aristóteles e Santo Agostinho) prestes a desaparecer no passado no momento mesmo em que anuncia o futuro. O fluxo do tempo, por essa razão, ameaça os indivíduos e os grupos em suas existências. como parar esse tempo devastador, essa "corrida desabalada", como evitar seu trabalho "incoerente, indiferente, impessoal e destruidor", como se livrar da "ruína universal" com a qual ameaça toda a vida?
A memória nos dará esta ilusão: o que passou não está definitivamente inacessível, pois é possível fazê-lo reviver graças à lembrança. Pela retrospecção o homem aprende a suportar a duração: juntando os pedaços do que foi numa nova imagem que poderá talvez ajudá-lo a encarar sua vida presente. De acordo com Santo Agostinho, "o espírito é a memória mesma". Buñuel dizia que era preciso perder a memória, ainda que parcialmente, para se dar conta de que é ela que "constitui a nossa vida". O conhecimento de si, observa Jean-Yves Lacoste, "leva consigo, necessariamente, os caminhos de uma memória de si mesmo". Mnemosyne, a "chave da consciência", é , portanto, uma fonte primordial para o que chamamos de identidade: "Memory make us, we make memory".
A memória, ao mesmo tempo em que nos modela, é também por nós modelada. Isso resume perfeitamente a dialética da memória e identidade que se conjugam, se nutrem mutuamente, se apoiam uma na outra para produzir uma trajetória de vida, uma história, um mito, uma narrativa. Ao final, resta apenas o esquecimento."


Salvador Dali, A Persistência da Memória

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Visita de um crápula (um narrador que não consigo parar de ler)

Na verdade, mais um grande livro do Umberto Eco. O protagonista Simonini sintetiza todo o ódio que derramou (e derrama) tanto sangue neste mundo "civilizado".


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Visita bem de dentro de mim.

...porque tem um nó na garganta que não me larga, ainda bem que eu me camuflo muito bem de alegria.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Visita do Poeta.

"Me procurei a vida inteira e não me achei 
- pelo que fui salvo."

Manoel de Barros

MANOEL DE BARROS - Só dez por cento é mentira (1ª parte)

sábado, 10 de setembro de 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Visita de urso hibernante.

Há mais de um mês não visito, há mais de meses não desenho, daquele desenhar que liga os pontos por dentro. Há mais de meses não escrevo, daquele escrever que faz tão bem, depois de revirar estômago. 
Cheguei a perder domínio; no mínimo, abandono de mim.
Retomar, reviver...Urgências.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Visita do inverno.

Hoje é o solstício de inverno.
Que a grande noite traga o sol. Que Ele não esqueça de aquecer a umidade do sul.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Pés nas Minas (2) - Gerais puxando o fio da Arte.

Inhotim bem pisado.

Passos e Compassos

Como em dança de desejos
Na rua  alegre e encantada
Apontam curvas teus dedos
Ao longo da antiga estrada

Sobre as linhas desse espaço
Teus pés recortam o mundo
E num passo vagabundo
Produzem cor e compasso.

Zully Oney Teijeiro Pontet

(homenagem aos pés nos caminhos coloridos, publicado em http://www.recantodasletras.com.br/pensamentos/2972835 )

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Pés nas Minas Gerais (1)


Fantasmagorias na Ouro Preto da noite de lua.

Pés nas Minas Gerais.


Ouro Preto e seus fantasmas.
21 de abril de 2011.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Visita para que não esqueçamos de usar as forças do bem .

Como dedicou Gilberto Gil, a todos (cariocas ou não), que querem, hoje e sempre, que a paz vença esta guerra.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre História de Não Acontecer, de Reges Schwaab.

Quando podemos sentir o movimento de outro, nosso corpo segue junto, arrastado pelo território da curiosidade. Mesmo quando intuímos que os olhos ficarão molhados.


Já no primeiro olhar que o sr. N. lança, a única troca que realizou, fugaz e jamais reencontrada, constata-se um destino seco e só.

A História de Não Acontecer é esse nascimento para a morte. Morte contrária a existir. Esse existir = nada do Sr. N.

E a essa iminência dolorosa as frases breves nos arrastam, levados pelo caracol que Reges conduz pelas palavras e espaços vazios, pelos quais dirige o traçado de seu alimento colado na gosma.

Como N, sofremos, não vislumbramos refúgio, acolhida, calor.

Percorremos os frios caminhos dos moluscos, parecidos com aqueles pelos quais Kafka nos conduziu na casca de uma barata.

Com o sr. N somos órfãos neste caminho de caracol, mas é impossível abandonar seu destino. Queremos ir até o fim, talvez para participar de algum acolhimento.

Reges nos leva, por frases metafóricas e cheias de sensibilidade, a este refúgio que todos procuramos.

Somos parceiros do sr. N., porque nele Reges inscreve a solidão que todos partilhamos. Como N., através da magnitude das palavras de quem o criou, buscamos incessantemente o refúgio caloroso que, sabemos, não vamos recuperar.

Mais:

TEDx Porto Alegre - sábado, 13 de novembro. Paixão que Inspira.


A cara do TEDx é também a minha, na montagem de Tiago Coelho.

Inspirada especialmente pelas palestras de Dhaval Chandha , dizendo que "os próximos 100 anos vão valer 20.000 em relação a avanço tecnológico" , demonstrando em fatos e gráficos que a tecnologia cresce de maneira exponencial (e o nosso pensamento continua linear...); Gil Giardelli, com sua visão lúcida e em frames desta revolução tecnológica e cultural que vivemos; Rosana Hermann, tricotando letras e números, tramando palavras e nos enredando em criatividade e carisma.

Inspirada por todos os demais palestrantes e pessoas das quais conheço tantas ações importantes no dia-a-dia, tantas a conhecer e fazer, tantas intervenções no coletivo, tanto a empreender.

Participar do TEDx Porto Alegre foi instigante experiência.


Fica como texto chave:

mudança de paradigmas para assimilar e transitar num novo mundo onde a tecnologia cresce de maneira exponencial. Sem espaço para pensamento linear e cartesiano.Sem espaço para individualismo.

Inovar, solidarizar-se, atuar socialmente, emprender.
 
http://tedxportoalegre.com.br/2010/palestrantes/

domingo, 7 de novembro de 2010

Filho Augusto autografa na Feira do Livro 2010.




A CHUVA
Augusto Pompermayer Merino

Quando pescava com meu pai,
Senti que a chuva caia
Molhando a gente
Porque caiu de repente.

Aí corremos pra casa
Porque a chuva era forte
Conseguimos nos proteger
E, logo em seguida, parou de chover.

Em casa, pensamos
Que bom que chegamos.
Mas a chuva não faz mal
E nem é prejudicial.

(publicado em RIMAS D'ÁGUA, livro de poemas da quarta série do Colégio Israelita Brasileiro)

sábado, 25 de setembro de 2010

No dia do meu aniversário.

Mensagens de amigos emocionam. Especialmente esta, que marejou bem dentro.

"Que a casa tem vista para o mar, já era sabido há mais de vinte anos. Mas que o mar está do lado de dentro das janelas; e que acima, onde gravitam as virtudes e os sentimentos mais elevados, existe outra casa idêntica refletida, isto não seria possível desvendar, até se adentrar os recintos levando uma maçã envolta em magia logo nas primeiras visitas. E muito cedo se descobre também que ela foi construída e decorada com tal arte e apuro que cada um dos seus recintos segue a ordem de um planeta, e os seus móveis e utensílios repetem o mapa das constelações e a localização dos astros mais luminosos. Os afazeres na casa, desde os mais triviais, até os com a máxima carga de sensibilidade, determinação e beleza – não raros–, são regidos pelo arranjo do firmamento da data vigente. E desta forma, os dias na terra e as noites no céu passam a se espelhar.



Assim sendo, olhar pelas suas janelas é como entrar em equilíbrio e consonância com todo um universo de paz, harmonia, criatividade, alegria e volúpia em forma de práticas extáticas incluindo risos e sorrisos da melhor e mais pura qualidade."

Obrigada, Lehgau-Z.
Como é bom sentir-se bem.

domingo, 27 de junho de 2010

Revendo uma entrevista antiga. Saramago brilha sempre.

"Estou a falar, mas continuo em silêncio". 
Saramago em entrevista para Marilia Gabriela, em março de 1999. .

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Banho de chuva.

Inverno, pela janela do meu quarto.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

É tanta água - Marisa Rotenberg e Gelson Oliveira


"Caros amigos,
é com imensa alegria que divulgamos que a música "É tanta água" está sendo divulgada no site e blog da Gisele Bündchen e pode ser ouvida no site do Projeto Água Limpa. A música foi composta, produzida e interpretada por mim e por Gelson Oliveira. No site do Projeto falamos um pouco sobre o processo de criação. O Água Limpa é um projeto ambiental promovido pela Gisele e sua família, e visa recuperar os mananciais hídricos das regiões de Horizontina e Tucunduva, no interior do RS, porém já está se espalhando pelos quatro cantos do nosso País."

FICHA TÉCNICA
Título: É tanta água
Ritmo: Ijexá com especial indígena
Autores: Marisa Rotenberg e Gelson Oliveira
Intérpretes: Gelson Oliveira e Marisa Rotenberg... Ver mais
Produção musical: Marisa Rotenberg e Gelson Oliveira
Voz Cherokee: Tchiya Amet (EUA)
Violão e baixo: Gelson Oliveira
Percussão: Ismael Oliveira, Fernando do Ó, Giovanni Berti e Marquinhos Fê
Arranjo de quarteto de cordas e 1º violino: Arthur Barbosa
2º violino: Rodrigo Bustamante
Viola: Gean Veiga
Violoncelo: Carla Pacheco
Gravado no Estúdio Soma por Tiago Becker (RS)
Mixado no Estúdio Transcendental por Léo Bracht (RS)
Masterizado no Estúdio Magic Master por Ricardo Garcia (RJ)


Seguem aqui os links:
http://www.youtube.com/user/giseleofficial
www.projetoagualimpa.org.br

Aqui o vídeo com a música:

http://www.youtube.com/watch?v=02B0JF3phbQ&feature=player_embedded

Boa audição!
Beijos,

--
Marisa Rotenberg
Ouça canções do CD Boa Hora:
www.myspace.com/marisarotenberg
Parabéns, amiga Mise!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

As Três Cores do Outono - teaser.

errud!to: 517. as primeiras "cores" de um projeto - leia Reges.

errud!to: 517. as primeiras "cores" de um projeto 

Comparsa Reges, postando em seu blog seu olhar sobre nós três e nosso terceiro (e definitivo) ano de escrivinhação literária.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Março - depois da praia, do mar...

Baterias recarregadas porque o ano vai que vai...

Retomar palavras, cores e linhas é missão pra todo dia.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

This is It


Voltando do cinema sensibilizada com This is It, belíssimo documentário de Kenny Ortega. Michael Jackson merece este respeito, evidente durante as filmagens, em toda sua equipe.
Diferente de todos os comentários da mídia que tinha orgasmos com sua decadência, MJ está cheio de talento e dignidade durante os ensaios. A maneira educada e sensível com que trata sua equipe é de um profissionalismo e delicadeza comoventes.
MJ continuará vivo por muito tempo. This is it.
http://www.youtube.com/watch?v=cyrkcz7msfY

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sentar.



















E olhar assim, assim, pro mundo que passa.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Enrosco.


Desenho quatro de uma série.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Praiar


Quando a saudade das ondas lembra como é bom o mar olhar. E ouvir e cheirar.

domingo, 4 de outubro de 2009

Dispo.


Desenho três de uma série.

sábado, 3 de outubro de 2009

Espalmo.


Desenho dois de uma série.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Desfio.


Desesnho um de uma série.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Tito, meu pai, doce e comovente

Tito lembrando o passado e contando para meu filho Arthur.
Publicado hoje (pena que cortaram os travessões dos diálogos) no Jornal do Comércio de Porto Alegre http://jcrs.uol.com.br/jc/site/noticia.php?codn=6978

Adoro tu, meu pai!!!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Traqitanas em metamorfose


ELE, A LU e ERRE - Traquitânicos Vulneráveis de volta à cena...

Mais uma traquitanagem do amigo Lehgau-Z.
Preparando mais, sem dúvida...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Vigésima quinta visita: Sirena em fuga


Frágil Fortaleza.

Areia. Para os lados. Cada olhar dirigido, muitos grãos indefiníveis. Em frente, o mar.

Nos últimos minutos, somam-se algumas batidas de asas, as gaivotas voam muito próximas, é como se ela nem estivesse presente, talvez já fosse invisível, talvez Afrodite ao avesso, não nascendo das espumas do orgasmo de Zeus, quem sabe virada em onda.

Cada lambida do mar torna seus pés mais murchos, no processo de virar espuma. Salgada espuma escorrida na areia. Cada punhado pinga por sua mão e mais uma torre está pronta. Construção abençoada por Gaudí, condenado castelo que combina com o que deixou: sopro, inconsistente vida.

Existe algo que permanece constante. Insistente, recorrente, consistente: lembrança. Só o que move seus pulsos (ainda pulsam), só o que permite que junte areia.

Lembra que andou pelo mundo, que o encontrou em um castelo, aquele que foi seu Rei , mas também sua armadura, que precisou sumir, que não podia fugir de seu destino de sereia. Ser espuma, ou ser areia. Também não esquece dos olhos nublados da maresia que ela provocava. Aqueles que eram febris: por ela, por ela, por ela. Aqueles que já eram dela.

Ela se foi. Sirena abandonou seu reino cercado de muralhas, protegido dos perigos, no alto da montanha. Sirena se foi. Abandonou aqueles braços, tão seus em torno de si, tão fortes a afastá-la do medo, e as pernas que já andavam por ela.

Agora é só areia. Além, oceano.

A mulher levanta, tudo está feito, dá as costas ao mar. Não é espuma, tem pernas fortes, ajeita a mochila nas costas e segue a claridade das luzes que já aparecem, nem tão longe. Pegará o próximo ônibus, qualquer lugar que não o mesmo.

Tem uma onda bem forte que dissolve a fortaleza. Resta uma torre. Alguém, dentro, acompanha os pés, as pernas que se afastam.

Um rei fecha seus olhos, engole seco. Areia.

sábado, 23 de maio de 2009

Um poema de Benedetti, de amar e longe estar.

Corazón coraza
Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.
(Mário Benedetti faleceu no último 17 de maio, em Montevideu.
Chamava-se Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti Forugia e tinha uma esposa de nome Luz Alegre.
Assim como o sol na bandeira uruguaia, algumas coisas - imagens ou palavras - carregam tudo em si.)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Vigésima terceira visita - sobre dedos, agulhas e bonecas



Era uma vez eu, uma guria criada no interior, que soltava as tranças depois da aula e ficava pelas ruas, casas dos primos, pulava muros, andava por terrenos baldios e subia em árvores. Jogava bola com os guris no meio da rua na frente da casa das tias. Percorria pomares e hortas, aprendia a fazer doces no tacho, no pátio das casas antigas. Tinha uma tia que mexia o doce de uva ou marmelo, fumegante. Ela era uma bruxa boa com seu nariz comprido e avental surrado.

Era uma vez certas brincadeiras infantis, pelos pátios e hortas das ruas do interior, onde muito corri sem hora para chegar em casa (a palavra que me vem neste momento, como definição da minha infância, é li-ber-da-de).

Era uma vez brincar de casinha ou nave espacial (a TV da minha infância era cheia de Perdidos no Espaço e Jornada nas Estrelas), ser diretora de cinema, com câmera de mentira na mão e umas mil idéias na cabeça, nos cenários de florestas perigosas ou cidades do velho oeste. Era bom fazer bebezinhos com as morangas de pescoço ou - elas - as bonequinhas de pano que aprendi a montar com minhas parentes mais velhas. As sobras das costuras eram recortadas e os pontinhos à mão, bem tortos, faziam viver as bonecas mais amadas que eu já tive. E das quais lembro com detalhes de cor, cabelos de lã, bocas bordadas.

Nelas estava todo o mundo das minhas antepassadas, das mulheres italianas, tias e avós que faziam meus vestidos e me ensinavam a criar brinquedos. Tudo era afeto, carinho, presente.
Aprendi a juntar , sem nenhuma técnica apurada, os paninhos da criancice.

Hoje retomo um pouco disso nas bonequinhas que eu e duas amigas fazemos. As “Vududolls”, frutos do imaginário que cada uma de nós reuniu em sua história.

Nos encontramos para costurar, coisa mais antiga. Coisa mais querida. Coisa boa, retomar aquele prazer. E, nos raros espaços de tempo que a vida adulta nos permite, vamos costurando e conversando, rindo e fazendo projetos.

Enquanto costuramos com carinho, o velho mundo das mulheres corre pelos nossos dedos.


Veja nossa coleção em:

sábado, 2 de maio de 2009

La Traquitana Vulnerável - Música fictícia democrática paradoxal psicossomática.



Banda real com música fictícia.
La Traquitana é formada por ELE na guitarra muda e vocais lacônicos, A LU (eu mesminha) no contra-baixo sem cordas e ERRE na bateria de algodão.

domingo, 15 de março de 2009

Vigésima primeira visita : para por em forma meu andar-andor.


Terabítia
.

Entre dentinhos separados sai a palavra, risadinha, sorriso contente. Criança. Os filhos da gente, os dos outros. Catando lixo nas favelas indianas, Athos, Porthos e? (Responda e será milionário!) Cara feia, troll gigante com coceira entre os dedos do pé.

Vemos paisagens assim que fechamos os olhos, se dentro é janela aberta. Aquarelas coloridas onde olhos escancarados enxergam borrões. Vendo e não olhando criança mutilada, perseguida, oprimida-opressora dos colegas: quem pode com criança maltratada?

Tem fronteira pra se cuidar de criança? Tem fronteira para plantar violetas?

Adultos, abrimos os olhos. Hora de viciar em realidade. Precisamos tanto enxergar: e as janelas se fecham. Mais comum é virar mato sem graça, onde haveria violetas. Mais comum é ser comum. Até o inconcebível descaso. Até ignorar que é merecido viver, por simplesmente estar vivo. Até porque vida existe, mesmo que, de olhos bem abertos, nem consigamos vê-la.


(Disse Leslie para Jesse: “Feche os olhos, mas deixe a mente bem aberta”. Depois de ver Quem quer ser um milionário e, tardiamente, Ponte para Terabítia, me lembro que ainda sou capaz de fechar os olhos.)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vigésima visita

Já é dia. Por aqui, em um bico qualquer, uma manhã se pia.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Até que enfim, décima nona visita: de dentro.

Inaugurando fevereiro, pós janeiro de só pensar.

Ano do búfalo, ano meu, digerir depois de muito ruminar. Igual a este fazer regurgitado: escrever, fatoato que me reconstitui ao meu inteiro.

Retomar o que se pode, em palavras. Dizer alinhavos nas letras é costurar panos por dentro. Como as mulheres aprendem com as tias e avós. Patchwork da alma.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Da visita de uma amiga, para encerrar 2008.

A saúde vem de dentro da gente, a nossa e a do mundo.

Carla Seabra.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Das visitas natalinas...

Das tais, esta merece presente:
Du Andy e a lenda de natal (www.khzine.blogspot.com)

E HO, HO, HO a todos!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Visita da vida, pela manhã.

Ever since I could remember anything, flowers have been like dear friends to me, comforters, inspirers, powers to uplift and to cheer.

Celia Thaxter (1835-1894)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Décima quinta visita: de como é natural humano ser.



Eis que o homem anda pelo velho e conhecido caminho, retorna de uma margem à qual tantas vezes recorre, na sua busca do que não sabe. Sempre ir e vir, movimento necessário.


Mas toda trilha caminha, diz a letra da música. Pra te encontrar. Te encontrar eu quero. Teu nomezinho carrego no meu patuá (é, diz a letra da música).


Sem esse querer pelo que os sentidos cheiram, olham, ouvem, lambem, tocam, ora, que graça teria o mundo? Pensamento humano, demasiado.

Pessoa, sentidos ardentes, paixões a latejar, será que a margem precisa atravessar? A maldade, a vaidade, amar a vida não é traição (ai, a letra, a melodia...). Para deleite dos sentidos, esta a força de estar vivo.

Ardência. Viver é agridoce.

Humanos, aqui estamos (sendo que o mundo termina logo ali): há algo melhor que tudo saborear?

Simples homem, sujeito a sua condição, na cadeia de seu corpo e dos desejos, negros olhos da Medusa (agora Lenine a me guiar).


Sabor e ar. Homem aqui, neste lado da margem. Sim, homem-sentidos. Vez por outra, também Buda na outra margem.


E a terra ciranda a rodar. Voz doce a (en)cantar. Eu, a escutar.


(Ouvindo a voz da amiga Marisa no seu Boa Hora, me deu uma vontade de escrever...)



sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Décima quarta visita: da dificuldade de Zen ser.

E lá está Buda, no outro lado da margem, sereno. Eliminada, sem fim, a morte, paixões quebradas, saltou do oceano das misérias para a realização do Nirvana.

“O mundo de destinos miseráveis é comparável a um grande oceano, e os sentimentos e pensamentos dos seres vivos à ausência de margem. Eles são ignorantes e não sabem que as ondas crescentes de inconsciência são as causas da ilusão e das ações kármicas que resultam no ciclo infinito de nascimentos-e-mortes. Seus sofrimentos são inexauríveis e eles são incapazes de atravessar o oceano amargo da mortalidade. Portanto, isto é chamado de à margem.”

Assim, ele fala no seu não falar, silencioso. Assim, ele fala em sua-voz-em-outras, de Han-shan Te ch’ing ou qualquer mestre zen que ilumina.

Então, o homem, nesta margem. Imortal, porém igual, o que é nada, nada arrepio, nada vento no pescoço. Corre atrás de ecos, eles a perseguí-lo, pensa em livrar-se da morte. Ilusão, a vida. Infinito fragmento: estar, inconstante.

“O coração [mente] mencionado é o coração da grande sabedoria que alcança a outra margem. Não é o coração humano que os homens mundanos usam para pensar erroneamente. O homem ignorante não sabe que fundamentalmente possui o coração da luz brilhante da sabedoria.”

O coração mundano continua perseguindo luz. Nada sábio, pensa-se assim. Assim, pensa sentir. Pensando, há somente o mero inchaço de músculos bombando sangue. Do sentimento, apenas reconhecidas as sombras do apego, estimuladas pelas circunstâncias. Assim, pensamentos-sentimentos sucedendo-se, cadeia incessante.

Buda sorri.

“Apenas o Buddha estava consciente da verdadeira sabedoria fundamental que pode iluminar e quebrar o corpo e o coração dos cinco agregados, que são não-existentes e cuja substância é inteiramente vazia. Portanto, ele saltou da aparência e alcançou a outra margem instantaneamente, cruzando assim o oceano amargo."

(Avalokiteshvara, o bodhisattva da verdadeira liberdade. O corpo e os cinco agregados são apenas o vazio).

Buda sereno.

“Após esta realização, onde os sofrimentos não poderiam ser aniquilados? Onde os grilhões do karma seriam algemados? Onde estaria o argumento obstinado sobre o ego e a personalidade, sobre o certo e errado? Onde estaria a discriminação entre falha e sucesso, entre ganho e perda? E onde estariam os embaraços em coisas como riqueza e honra, pobreza e desonra?

Shariputra!

(Este era o nome de um discípulo do Buddha. Shari: pássaro com olhos penetrantes. A mãe dele tinha os mesmos olhos penetrantes e foi chamada com o nome do pássaro. Então o próprio nome dele era o filho [putra] de uma mulher que tinha olhos de shari. Entre os discípulos do Buddha, ele era o mais sábio.)

A forma não difere do vazio, nem o vazio da forma. A forma é idêntica ao vazio e o vazio é idêntico à forma. Assim também são os cinco agregados em relação ao vazio.”

Enganado, o homem no lado de cá, confinado em seu corpo, nada pode quanto ao nascer-morrer, nem quanto ao ir-e-vir. Também não pode quebrar a visão mundana de que a personalidade é permanente. Faz planos para um século sem realizar nada já, nem pode, com corpo ilusório, corpo submisso às quatro mudanças, nascimento, velhice, doença e morte, de momento a momento, sem interrupção, rumo ao resultado último, óbvia constatação de que é impermanente: retornará ao nada. E ainda não terá alcançado o limite da lei fundamental: o vazio absoluto. "A forma não difere do vazio.”

Com a contemplação errada e com a realização resultante de que a forma difere do vazio, o homem persegue trôpego em sua avidez por som, forma, riqueza e ganho, e completo apego às paixões do cinco desejos surgidos dos objetos dos cinco sentidos — às coisas vistas, ouvidas, cheiradas, degustadas ou tocadas.

E lá está Buda. Na outra margem.

“Shariputra, toda a existência é vazia, não há nem início nem fim, nem pureza nem mácula, nem crescimento ou declínio. Portanto, com o vazio, não há forma, não há agregados; não há olho, ouvido, nariz, língua, corpo e mente; não há forma, som, odor, sabor, toque e objeto do pensamento; não há conhecimento, ignorância, ilusão e fim da ilusão; não há sofrimento, declínio, morte, fim de sofrimento e morte; não há conhecimento, ganho e não-ganho.”

O homem do mundo mira a outra margem. Mente cheia, pesa. Anda na beira. Volta. Vai. Homem tropeça. Cai n’água. Esperneia engasgado. Buda mira. Sai da água, homem molhado. Olha ao redor. Ninguém vê – ainda bem – que vergonha. Desiste da água, demais oceano. Volta pelo mesmo caminho. Ego humilhado pesa mais. Mente cheia.

Buda ri. Fecha os olhos. Assim ele fala no seu não falar, silencioso.

(Preso em aspas, falou Han-shan Te-ch’ing. 1576-1623)

Espalhando. Porque merecemos este deleite literário.


"Sob olhares mais atentos, dir-se-ia que os futuros não realizados são apenas ramos do passado.

Eu era um Romeu e sangrava. Mas ninguém notava."

Acesse: http://www.mojobooks.com.br/mojo_tx.php?idm=190

Para desfrutar de literatura em grande estilo, leia FROM A MOTEL 6 #1, de Lehgau-Z Qarvalho, publicado no site Mojo Books.

Presente escrito para ser lido e relido, para levitar entre as frases, ir de lado a outro, flutuar em sensações de ritmo e poesia contada. Lehgau-Z faz isso: devora sentimentos que também temos, cotidianos que vivemos, nos digere e nos retorna tudo em palavras-presentes. Traduz com maestria nossos sentires mais viscerais. É um dos comilões inveterados das emoções cotidianas. Mas dos raros, daqueles capazes de sair vomitando Arte por aí...


Divulgando. Porque sereias devem ser ouvidas.



Caros amigos!!

Depois do lindo show no Rio dia 24 de novembro, com casa cheia, chegou a "boa hora" de fazer em Porto Alegre. Dia 10 de dezembro, próxima quarta-feira, tem show de lançamento do segundo CD da minha amiga Marisa Rotenberg, Boa Hora, patrocinado pela Petrobras, produzido por Gastão Villeroy e Eugenio Dale, pelo selo Pic Music, de Antonio Villeroy.

Os ingressos antecipados já estão à venda no próprio Abbey e na Azul Cobalto (Lima e Silva, 744)

Classe artística (com identidade) tem desconto de 50% no dia do show.

O CD já está à venda nas Livrarias Cultura e Saraiva, e também no Abbey.

Quer uma provinha do som?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008


Houve no Brasil uma maçonaria de mulheres ao lado da maçonaria dos homens, a das mulheres se especializando nisto: em guardar segredos das receitas de doces e bolos de família.(Açúcar, Gilberto Freyre)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008


Sem açúcar não se compreende o homem do nordeste. Há um gosto todo especial em preparar um pudim ou um bolo por uma receita velha de avó. (Açúcar, Gilberto Freyre)

Visitando Gilberto Freyre - Interprete do Brasil ( e sendo bem impressionada)


O tempo amanhece e anoitece, morre e renasce, como se existisse para o homem, dentro do homem; e não fora dele. (O brasileiro entre outros hispanos, Gilberto Freyre.)


Após abraçar meus talentosos amigos Reges e Edgar, que autografavam na Feira do Livro, percorri as ruelas encadernadas, pisando o calçamento tingido de lilás-flor-de-Jacarandá (que vibra mais no tom nublado da feira).
De tanto tropeçar em pessoas, me escondi no Santander Cultural, aproveitando para matar a curiosidade de como estariam instaladas as exposições de Gilberto Freyre e Ariano Suassuna.

Eis que adentro numa "Casa Grande" de mui hospitaleiro acolhimento, recebida por uma azulejada parede, com as fotos de Freyre a me mirar.

A proposta desta mostra, promover um diálogo de reflexão entre o Nordeste e o Sul do País, nos encaminha por dois veios da matriz cultural nordestina, andando com Freyre, a partir da Zona da Mata pernambucana, e com Suassuna, a partir do sertão.

Consegui ficar no primeiro andar ( a zona da Mata), tal o prazer de percorrer a casa branca e grande, cumprimentada por gigantesca dama, indo de quartos a cozinha e sala de jantar, abrindo portas de armários, ligando microondas ou abrindo geladeiras; encontrando, lá dentro, deliciosas frases do nosso Gilberto Freyre - sem dúvida: Intérprete do Brasil.

São cerca de 200 obras, entre elas, instrumentos de suas pesquisas (podemos ouvir entrevistas gravadas por ele), manuscritos originais e primeiras edições de seus livros, documentos pessoais, cartas a amigos, fotografis pertencentes à família, singelas pinturas, uma surpresa: como hobby e intenção do registro etnográfico, Freyre desenhava, pintava e presenteava amigos e parentes com suas obras.
Todo este conteúdo, sob a delicada curadoria de Julia Peregrino, Elide Rugai Bastos e Pedro Karp Vasquez, distribui-se em ambientes cenográficos criados por André Cortez. A grande instalação consegue nos deixar em intimidade com a obra de Freire; mais ainda, como ele, em intimidade com o Brasil dos costumes cotidianos, das comidas, das roupas e cheiros da vida e língua do povo que ele olhou e valorizou amorosamente, na sua diversidade e unidade cultural.
É emcionante abrir gavetas e encontrar, vivamente, Gilberto Freire em frases cheirosas, ou abrir uma geladeira e degustá-lo em suas palavras doces.

Depois de me fartar de Freyre, ver Suassuna vai merecer outro dia de visita. Não seria digno visitá-lo, então, somente para o cafezinho... Agendarei bastante tempo para saborear Suassuna com todo o vagar, aquele que o Sertão merece, numa próxima visita.


"Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil é a terceira grande mostra de artes visuais realizada pelo instituto em 2008. É também a segunda vez que o Santander Cultural dedica uma mostra deste gênero à Feira do Livro - a primeira foi em 2004, durante as comemorações dos 50 anos do evento, com OLHO VIVO - a arte da fotografia, que reuniu os 50 Anos de Europa de Cartier Bresson e 50 Anos da Arte Fotógrafica Brasileira, abrangendo obras do acervo do Museu de Arte Moderna - MAM de São Paulo.

A exposição, que foi criada e exibida originalmente no Museu da Língua Portuguesa, fica em cartaz no Santander Cultural até 15 de fevereiro e terá diversas atividades simultâneas e de estímulo à leitura. Serão oficinas, encontros e sessões interativas com teatro, música e audiovisual no hall do instituto, com a participação de ONGs, atores e escritores convidados."

http://portalliteral.terra.com.br/artigos/exposicao-dos-mestres-nordestinos-gilberto-freyre-e-ariano-suassuna

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Das visitas às previsões...

O tempo melhora por aqui.
Chegados do oceano mais oriental, sistemas de baixa pressão impulsionam um ar mais frio.
A nebulosidade diminui e o sol reina novemente. Noite fria...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Previsão para hoje

Espírito nublado, com pancadas de chuva, por vezes fortes em áreas isoladas, trovoadas.
(Perigo de desabamento d'alma.)

sábado, 18 de outubro de 2008

Das cinco visitas: memórias de Sirena e Ferdinando - como se fosse hoje.

Bandeira e vulcão.

Um promontório avança, esparrama espumas circundantes, molhadas olas à vida de penhascos, rochas esbofeteadas, violentas, las olas vêm e vão.

O navegante avança, desbrava, feroz guerreiro forjado em Sagres, além-mar.

Atrás dele, oceano. Nos olhos, o cabo, molhada praia, escancarada mata.

A bandeira é fincada, o escudo é soberano.

Lá em cima, olhando tudo, séculos vividos, a lua é outra mata, bandeira americana penetrada, satélite agora azul, vermelho e branco. Lua fincada, astro bandeira pop em um céu de outro século. Olho eterno que tudo fita. Sempre ontem, sempre hoje. Sempre lua e universo.

Sempre o homem branco, pesadas armas, pólvora, pólvora. Canhões, pesadas bolas. Carabinas, escopetas ou mísseis ultra-sônicos. É o homem, seu fogo, suas naves e navios. Explorar, penetrar, Matar ou amar. Alma urgente.

A mata, o promontório explode. Solta faíscas, brada, buraco aberto na terra. Terra farta, sementes molhadas, folhas secas, grandes cuspidas de fogo, labaredas por entre areias, praias, lânguidas ondas que roçam areias, sibilantes espumas que lambem a praia e o calor, insuportável calor.

Fogo de homem e suas armas para fora. Fogo de chão e suas lavas. Por dentro. Maresias, náuseas interiores, vômitos incontidos, impossíveis de engolir.

Grito do homem, de guerra, ancestral. Grito da terra, aberta ferida. Buraco, quente vulcão estraçalhado, lava que arde, salta,tudo cobre, queima areia, evapora espuma, mar que sobe em vapores salgados.

A noite se faz, a lua é rainha, ela e sua bandeira fincada; estrelas, muitas. Brilhos de fogos, incandescentes estrelas, noturnas e efêmeras em sua imensidão secular.

Findam erupções e maremotos. Restaurada a fugaz eternidade, tudo descansa.

Arfantes, seus ventos aquecem seus pescoços. Toda linguagem é cristalina, seja a do olhar com que se olham, ou do luar que a eles vê.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A quarta visita: de Sirena a si - reflexões.

Sinto-me lisa, plana, superficial, apesar de muito refletir.

Vejo-me com a mesma forma e tamanho, por vezes atrás de mim, porém sempre a olhar-me invertida. Raios partem de meus olhos e os atingem, clonados em frente a mim. Como flechas na pele, recebo luzes velozes que percorrem uma trajetória angular. Tenho a impressão que vêm de algo imaterial, minha própria aura em linha reta, mentalmente prolongando os raios refletidos, em sentido contrário, para trás de mim.

Possivelmente teria nascido da superfície da água. Restos meus foram descobertos nos despojos da civilização Badariana, junto ao rio Nilo, história inscrita em lâminas de cobre, deixadas no quinto milênio antes de Cristo.

Hoje, vulgar e tão banal, sinto-me qual um metal gelado, coberto por uma gasta camada de prata, ou amalgamada a mim mesma, constante e previsível, lâmina de qualquer metal barato, depositada sobre minha face pálida de vidro gélido.

Não passo disso: uma superfície plana que se produz em visões virtuais, completamente simétricas de eu mesma. Enatiomorfa: olho-me e só tenho isso a dizer; ofendo-me, então, com palavra tão esdrúxula.

Impossível projetar-me num alvo, nunca poderei morrer. Sigo na frieza de feixes de luz paralelos, sem jamais tocar-me. Sou muitas e nenhuma.

Virtual e reflexa, jamais sentirei a plenitude de estar viva.

(Sirena visita sua imagem, no espelho.)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Visita recomendada - pequeno comercial

Fiz e recomendo.

Foram esta oficina de conteúdo inspirado e o grupo que se formou, de professor e colegas sensíveis e talentosos, que me permitiram dar ao que escrevo um perfil mais metódico, estruturado e criativo. Era o fundamental incentivo de que eu precisava para ter a segurança de compartilhar minhas escrivinhações.

OFICINA INTERATIVA DE CRIAÇÃO DE PERSONAGENS - com Lehgau-Z Qarvalho

QUINTAS-FEIRAS À NOITE (a partir das 19 horas). Com início em 23 DE OUTUBRO. HISTÓRIAS são feitas com e por personagens. São eles o elemento central de todo e qualquer enredo. Portanto, antes de pensar em construir uma boa história, é imprescindível que os personagens sejam muito bem delineados, para que passem a “existir” no imaginário do leitor; e façam da trama uma boa história.

INSCRIÇÕES na PALAVRARIA (Vasco da Gama, 165 – Tel: (51)3268.4260 – Bairro Bom Fim – Porto Alegre – RS) ou lehgauz@yahoo.com.br

http://www.lehgau-z.blogspot.com
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=14292602005679285857

CURSO DE INTRODUÇÃO À ESCRITA LITER[ÁRIA http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=41823733&tid=5254521865350055173&start=1


domingo, 5 de outubro de 2008

Duas visitas: de Ferdinando, sobre si e Sirena.


"As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio".
 Franz Kafka, 1917.



I

Ferdinando é o meu nome. Acordei, em meio ao frio, com uma incrível vontade de contar-lhes uma história.
A Melencolia de Dürer é o espelho que mais olho, pois devolve-me a imagem do que sou entre os quatro temperamentos alquímicos, com o necessário cadinho para as operações de fogo e, com ele, o mar, no horizonte.Tenho uma inclinação para longas viagens, contraditória forma de entrar em mim. Desta ânsia por trilhar caminhos longos, andei por oceanos buscando meu centro, com minha lava necessitando rescaldo nas águas infinitas que ligam mundos.
Atravessando o Atlântico encontrei Sirena.
Talvez, como Ulisses, devesse tapar meus ouvidos com cera e acorrentar-me ao mastro do navio. Talvez, assim, ela deslizasse, em seu silêncio, voltasse para suas profundezas.
Ah! Esquecia, ou para não afugentá-lo, meu tolerante leitor, omitia: Saturno é o meu planeta, aquele da revolução mais lenta, melancólico planeta. Tenho a inconveniente mania de olhar para dentro, o que é igual a encontrar dúvidas. Às vezes, desespero.
Hipócrates diria que ando em discrasia, já que Saturno tem me atormentado, fazendo com que meu baço secrete esta negra bílis que corre por minhas veias. Dessa mistura de sangue e negra bílis, meu organismo encontra-se febril, numa temperatura suficiente para cozer meu estado corporal. Ardo, então.
Eis minha síntese: álcool sou, onde a combinação dos princípios irreconciliáveis do fogo e da água, pode, enfim, ser atingida. Frescor e ardência, sendo que administrar esta alternância é minha rotina e luta, por meio das buscas de caminhos longínquos ou vestindo minha capa opaca, tecida nas moléculas do carbonato de lítio.
Mas dizia-lhe, atencioso leitor, que em minhas andanças, encontrei Sirena.

II

Pele clara, tinha um “eu-sei-muito-bem-o-que” de promessa nos olhos, cabelos curtos e compridos.
Andava com passos leves, parecia voar. O seu signo era o décimo primeiro do zodíaco, situado entre Capricórnio e Peixes e associado à constelação de Aquarius.
Talvez por ter nascido junto ao mar, era o que era; talvez porque assim destinassem seus astros.
Tinha a mania de conceituar e explicar o universo. Parecia entendê-lo perfeitamente. Como também diziam dela – e de seu signo – tinha profundo respeito e amor pela liberdade, cooperação com a humanidade e um olhar criativo para o devir. Signo de ar. Daqueles que chegam ao fundo de si pela comunicação perfeita com o mundo. Mas tropeçam e quebram coisas pelo caminho.
Sua cor era azul e sua pedra, água marinha. Suas partes do corpo mais sensíveis: tornozelos e sistema nervoso.
Sim, confirmando as previsões astrológicas, ela era leve – tinha corrido muito e fazia isso sempre, primeiro percorrendo quilômetro de areias e chutando as ondas, depois correndo mundo como um Mercúrio com asas nos pés – e um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que era serena e plena de maresia, também vivia tempestades por dentro. Fortes ondas, naufrágios e pedaços jogados às pedras.
Dizem que isso a tornava assim, imprevisível. Vertia pérolas e conchas coloridas quando falava, mas serpentes marinhas em alguns momentos de silêncio. E elas saiam pelos olhos: queimavam algumas vezes.
Dizem, também, que isso a levou de nós. Suas tempestades por dentro. Seus maremotos incontroláveis. Tsunamis.
Certa vez andava eu pelo mundo, não lembro se ainda acreditava em sereias, e ela estava lá, na minha frente. Jamais voltaria a duvidar de que elas existissem.
Estava em Toledo, visitava a casa de Domenikos Theotocopoulus, El Greco.
Ela apareceu por perto, descendo uma viela de pedras amarelas. Me perguntou qualquer coisa, seu espanhol era muito ruim e sua voz, encantadora. Sim, literalmente. Um canto de sereia que me tirou de mim, mergulhei em suas marinhas profundidades. Naufraguei, tornei-me um casco de navio no fundo dela.
Bem, ela perguntou coisa qualquer, eu respondi coisa qualquer, só queria ouvi-la, precisava ouvi-la, enlouqueceria se não a ouvisse. Ela se ia, e meu destino de leão de fogo, filho do sol, era rastejar a seus pés, segui-la incodicional e loucamente.
Primeiro foi sua voz, depois seus cabelos, então longos – sim, ela os deixava crescerem muito, depois os cortava, a surpreender a todos. Sempre assim: longos e repentinamente curtos, previsivelmente assim, surpreendentemente assim.
Doido náufrago a segui, fiz seu roteiro, olhamos ambos para a Toledo sombria e plúmbea de El Greco. Ela olhava para aquele genial tormento e as lágrimas caiam, tremia um pouco, me parecia. Aquele era o sinal, percebi como deveria ser por dentro. Ou nada notei? Ora, um homem enfeitiçado não tem esse discernimento.
De lá, continuei a segui-la e foi entre armaduras e espadas que voltei a falar com ela. E nunca mais parei. Porque não podia deixar de ouvi-la. Jamais. Minhas falas só eram deixas para as suas. Sempre.
Ficamos juntos. Paramos na murada medieval, olhamos o rio em volta de Toledo. Seguimos adiante, íamos e vínhamos, eu sempre atrás dela, espadachim servil, Leão de Espanha domado em uma coleira dourada. Foi o que restou de meu brilho.
Certo dia, após uma noite em que mais uma vez tive orgasmos de me enroscar em seus cabelos, ela os cortou. Simples assim, cortou. Curtos, muito curtos, minimamente assim, curtos. Assim surpreendia, assim previsivelmente surpreendia, cada vez em que muitas vezes os cortava.
Então a seguia, mundo afora, mas nossa casa era lá, junto ao mar.
Eu, afogado desde o início.Ela, mar imenso, sereno a me afagar, maremoto a me matar.
Um dia, ela percebeu isso. Isso: que meus olhos tinham uma febre mortal por dentro. Amarela. Olhou para mim, ternamente. Nenhuma serpente nos olhos, mas nada falou.
Foi. Simplesmente assim, tão simples assim, se foi, assim, me deixou, assim. E eu, naquela casa. Só, naquela casa.
Pequena casa, em frente ao mar. Infinito mar, assim, grande demais. Incontável e incontido mar. Indomável mar. Indecifrável mar.

Uma visita de Sirena

Sirena, a lua,o mar, os outros.

Lua crescente, quase cheia.

Cada vez que chego perto do mar, alguma coisa me chama nele, sei que um dia serei dele, seremos um, eu e mar, mar Sirena, Sirenamar.

Girar mundo pelo mar. Bem, basta a Terra, já que ir até a lua vai demorar um pouco mais. E deve ser muito chato por lá. Isso eu vou fazer: girar a Terra inteira, pelo mar! Poderia ir nadando, mas barcos e navios são confortos que me atraem. Voar também é uma possibilidade interessante, talvez pra quebrar algum galho. Mas o mar... Ah,o mar...

Só trocaria viagens marítimas por viagens de guarda-chuvas. Mas eles não me levam muito longe: daqui para ali, só isso.

Nossa, isso foi um grito? Foi um grito! O barulho vem do mar!

Tá, rápido, Sirena, corre, putz, não vejo nada, só queria ver o que está acontecendo, que escuro, nossa, tem gente lá dentro d’água, ai, é lá, não posso ir, sabe lá o que está acontecendo, ai! Água gelada! (pensa que ela não gostou? Adora este arrepio...) Ai, que medo, Deus me ajude, que eu faço, putz, vou lá, azar, vou lá, saia que me incomoda, droga, ai,ai.

(Prazer, medo e prazer, água fria, mão do mar, leva a sereia, leva a sereia...)

Pessoas, sim, são duas, barulho, água, sufoco, movimento, engasgue, AFOGAMENTO!

(Seus olhos enluarados já vêem claramente; seu corpo precisa ir, ela precisa fazer alguma coisa.)

- Pára! Larga! Laarga!

- Sai daqui!

- Solta!

(Luta, Sirena ataca: homem forte x mulher frágil. Muda o foco: pessoa sendo afogada – mulher 1- foge, busca a praia. Sirena – mulher 2 – quase afogada.)

- Maria! Vem cá! ( Muda o foco: homem segue mulher 1; mulher 2 abandonada no mar)

Meu mar... Me leva... Quem sabe agora me torno espuma, quem sabe água, quem sabe sal...

( Não adianta, Sirena ainda não é seixo, nem concha, nem peixe: o mar, suave, a devolve `a areia.)

Ai, dói tudo, ai,olha lá, são os dois! Se abraçando. É ela! Está abraçando o canalha! Ah, não! Vou lá!

- Escuta, ‘ta’ consolando o canalha?

- É o meu marido, não é canalha!

- Como assim? Ele estava tentando TE MATAR!

- E o que tu estavas fazendo lá na água?

- EU?! Tu tentavas matá-la, o que tu achas que EU estava fazendo lá?

- Qual é a tua, garota, que história é essa de ‘te meter’ em nossa vida?

- Vem, meu amor, vamos embora! Eu cuido de ti. Tem gente louca por aqui!

Os cabelos dela parecem cracas.

( Sai o casal. Sirena, pasma.)

Lua, lua, me busca, lua. Selenitas também serão assim?

Bela lua... Assim morrem as mulheres, nas mãos dos homens que protegem...

( Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 2008: “Corpo de mulher, carbonizado, é identificado pelo marido.”

A foto: marido desolado.Sirena sente um arrepio percorrendo sua coluna.

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