"As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio". Franz Kafka, 1917.
A Melencolia de Dürer é o espelho que mais olho, pois devolve-me a imagem do que sou entre os quatro temperamentos alquímicos, com o necessário cadinho para as operações de fogo e, com ele, o mar, no horizonte.Tenho uma inclinação para longas viagens, contraditória forma de entrar
Atravessando o Atlântico encontrei Sirena.
Ah! Esquecia, ou para não afugentá-lo, meu tolerante leitor, omitia: Saturno é o meu planeta, aquele da revolução mais lenta, melancólico planeta. Tenho a inconveniente mania de olhar para dentro, o que é igual a encontrar dúvidas. Às vezes, desespero.
Hipócrates diria que ando em discrasia, já que Saturno tem me atormentado, fazendo com que meu baço secrete esta negra bílis que corre por minhas veias. Dessa mistura de sangue e negra bílis, meu organismo encontra-se febril, numa temperatura suficiente para cozer meu estado corporal. Ardo, então.
Eis minha síntese: álcool sou, onde a combinação dos princípios irreconciliáveis do fogo e da água, pode, enfim, ser atingida. Frescor e ardência, sendo que administrar esta alternância é minha rotina e luta, por meio das buscas de caminhos longínquos ou vestindo minha capa opaca, tecida nas moléculas do carbonato de lítio.
Mas dizia-lhe, atencioso leitor, que em minhas andanças, encontrei Sirena.
II
Pele clara, tinha um “eu-sei-muito-bem-o-que” de promessa nos olhos, cabelos curtos e compridos.
Andava com passos leves, parecia voar. O seu signo era o décimo primeiro do zodíaco, situado entre Capricórnio e Peixes e associado à constelação de Aquarius.
Tinha a mania de conceituar e explicar o universo. Parecia entendê-lo perfeitamente. Como também diziam dela – e de seu signo – tinha profundo respeito e amor pela liberdade, cooperação com a humanidade e um olhar criativo para o devir. Signo de ar. Daqueles que chegam ao fundo de si pela comunicação perfeita com o mundo. Mas tropeçam e quebram coisas pelo caminho.
Sua cor era azul e sua pedra, água marinha. Suas partes do corpo mais sensíveis: tornozelos e sistema nervoso.
Sim, confirmando as previsões astrológicas, ela era leve – tinha corrido muito e fazia isso sempre, primeiro percorrendo quilômetro de areias e chutando as ondas, depois correndo mundo como um Mercúrio com asas nos pés – e um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que era serena e plena de maresia, também vivia tempestades por dentro. Fortes ondas, naufrágios e pedaços jogados às pedras.
Dizem que isso a tornava assim, imprevisível. Vertia pérolas e conchas coloridas quando falava, mas serpentes marinhas em alguns momentos de silêncio. E elas saiam pelos olhos: queimavam algumas vezes.
Dizem, também, que isso a levou de nós. Suas tempestades por dentro. Seus maremotos incontroláveis. Tsunamis.
Certa vez andava eu pelo mundo, não lembro se ainda acreditava em sereias, e ela estava lá, na minha frente. Jamais voltaria a duvidar de que elas existissem.
Estava em Toledo, visitava a casa de Domenikos Theotocopoulus, El Greco.
Ela apareceu por perto, descendo uma viela de pedras amarelas. Me perguntou qualquer coisa, seu espanhol era muito ruim e sua voz, encantadora. Sim, literalmente. Um canto de sereia que me tirou de mim, mergulhei em suas marinhas profundidades. Naufraguei, tornei-me um casco de navio no fundo dela.
Bem, ela perguntou coisa qualquer, eu respondi coisa qualquer, só queria ouvi-la, precisava ouvi-la, enlouqueceria se não a ouvisse. Ela se ia, e meu destino de leão de fogo, filho do sol, era rastejar a seus pés, segui-la incodicional e loucamente.
Primeiro foi sua voz, depois seus cabelos, então longos – sim, ela os deixava crescerem muito, depois os cortava, a surpreender a todos. Sempre assim: longos e repentinamente curtos, previsivelmente assim, surpreendentemente assim.
Doido náufrago a segui, fiz seu roteiro, olhamos ambos para a Toledo sombria e plúmbea de El Greco. Ela olhava para aquele genial tormento e as lágrimas caiam, tremia um pouco, me parecia. Aquele era o sinal, percebi como deveria ser por dentro. Ou nada notei? Ora, um homem enfeitiçado não tem esse discernimento.
De lá, continuei a segui-la e foi entre armaduras e espadas que voltei a falar com ela. E nunca mais parei. Porque não podia deixar de ouvi-la. Jamais. Minhas falas só eram deixas para as suas. Sempre.
Ficamos juntos. Paramos na murada medieval, olhamos o rio em volta de Toledo. Seguimos adiante, íamos e vínhamos, eu sempre atrás dela, espadachim servil, Leão de Espanha domado em uma coleira dourada. Foi o que restou de meu brilho.
Certo dia, após uma noite em que mais uma vez tive orgasmos de me enroscar em seus cabelos, ela os cortou. Simples assim, cortou. Curtos, muito curtos, minimamente assim, curtos. Assim surpreendia, assim previsivelmente surpreendia, cada vez em que muitas vezes os cortava.
Então a seguia, mundo afora, mas nossa casa era lá, junto ao mar.
Eu, afogado desde o início.Ela, mar imenso, sereno a me afagar, maremoto a me matar.
Um dia, ela percebeu isso. Isso: que meus olhos tinham uma febre mortal por dentro. Amarela. Olhou para mim, ternamente. Nenhuma serpente nos olhos, mas nada falou.
Foi. Simplesmente assim, tão simples assim, se foi, assim, me deixou, assim. E eu, naquela casa. Só, naquela casa.
7 comentários:
Muito legal, como sempre, tudo o que fazes!! ;)
Estava aqui querendo escrever mais, sobre tudo, mas a minha Lilica quer atenção, e não deixa... :P
Volto outra hora, com mais calma.
Beijos e parabéns pelo espaço, tá lindo!!
Sobre Ana e seu estilo cinema-poético-gráfico:
Muito bom reler teus escritos, relembrar idéias, papos e letras trocadas e compartilhadas. Ver nas tuas escolhas esse estilo envolvente, roteirístico, cinema-poético-gráfico que nos enche de alegria e nos faz bem.
Gostei de tudo!
:o)
Muito show teu blog. Tenho certeza que vai bombar.
Beijo grande.
Prá mim uma grande revelação.
Teu texto me deu grande alegria, me prendeu a atenção e me fez
reler, reler e reler muitas situações.
Esta maravilhoso teu blog Aninha
Continue sempre.
grande beijo
Lessa
Aninha...o que dizer? Fantástico, um espetáculo. Muito intenso, interno, interiores, íntimo...muito Aninha. Amei! Bjks
é vc mesma? não sabia desse conteúdo todo... artista plastico-literária... xi, vai cair o hífen, como escrever coisas assim? beijos múltiplos de parabéns, quero mais! O blog tá show!
B'ninha, velha Amiga, velha guerreira!
Vai, continua a desbravar mais este pago!! Eloquentemente, quente(mente!), envolvente... roucamente!!!
Meu beijo, sempre!!!
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