Sirena, a lua,o mar, os outros.
Lua crescente, quase cheia.
Cada vez que chego perto do mar, alguma coisa me chama nele, sei que um dia serei dele, seremos um, eu e mar, mar Sirena, Sirenamar.
Girar mundo pelo mar. Bem, basta a Terra, já que ir até a lua vai demorar um pouco mais. E deve ser muito chato por lá. Isso eu vou fazer: girar a Terra inteira, pelo mar! Poderia ir nadando, mas barcos e navios são confortos que me atraem. Voar também é uma possibilidade interessante, talvez pra quebrar algum galho. Mas o mar... Ah,o mar...
Só trocaria viagens marítimas por viagens de guarda-chuvas. Mas eles não me levam muito longe: daqui para ali, só isso.
Nossa, isso foi um grito? Foi um grito! O barulho vem do mar!
Tá, rápido, Sirena, corre, putz, não vejo nada, só queria ver o que está acontecendo, que escuro, nossa, tem gente lá dentro d’água, ai, é lá, não posso ir, sabe lá o que está acontecendo, ai! Água gelada! (pensa que ela não gostou? Adora este arrepio...) Ai, que medo, Deus me ajude, que eu faço, putz, vou lá, azar, vou lá, saia que me incomoda, droga, ai,ai.
(Prazer, medo e prazer, água fria, mão do mar, leva a sereia, leva a sereia...)
Pessoas, sim, são duas, barulho, água, sufoco, movimento, engasgue, AFOGAMENTO!
(Seus olhos enluarados já vêem claramente; seu corpo precisa ir, ela precisa fazer alguma coisa.)
- Pára! Larga! Laarga!
- Sai daqui!
- Solta!
(Luta, Sirena ataca: homem forte x mulher frágil. Muda o foco: pessoa sendo afogada – mulher 1- foge, busca a praia. Sirena – mulher 2 – quase afogada.)
- Maria! Vem cá! ( Muda o foco: homem segue mulher 1; mulher 2 abandonada no mar)
Meu mar... Me leva... Quem sabe agora me torno espuma, quem sabe água, quem sabe sal...
( Não adianta, Sirena ainda não é seixo, nem concha, nem peixe: o mar, suave, a devolve `a areia.)
Ai, dói tudo, ai,olha lá, são os dois! Se abraçando. É ela! Está abraçando o canalha! Ah, não! Vou lá!
- Escuta, ‘ta’ consolando o canalha?
- É o meu marido, não é canalha!
- Como assim? Ele estava tentando TE MATAR!
- E o que tu estavas fazendo lá na água?
- EU?! Tu tentavas matá-la, o que tu achas que EU estava fazendo lá?
- Qual é a tua, garota, que história é essa de ‘te meter’ em nossa vida?
- Vem, meu amor, vamos embora! Eu cuido de ti. Tem gente louca por aqui!
Os cabelos dela parecem cracas.
( Sai o casal. Sirena, pasma.)
Lua, lua, me busca, lua. Selenitas também serão assim?
Bela lua... Assim morrem as mulheres, nas mãos dos homens que protegem...
( Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 2008: “Corpo de mulher, carbonizado, é identificado pelo marido.”
A foto: marido desolado.Sirena sente um arrepio percorrendo sua coluna.
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