Sinto-me lisa, plana, superficial, apesar de muito refletir.
Vejo-me com a mesma forma e tamanho, por vezes atrás de mim, porém sempre a olhar-me invertida. Raios partem de meus olhos e os atingem, clonados em frente a mim. Como flechas na pele, recebo luzes velozes que percorrem uma trajetória angular. Tenho a impressão que vêm de algo imaterial, minha própria aura em linha reta, mentalmente prolongando os raios refletidos, em sentido contrário, para trás de mim.
Possivelmente teria nascido da superfície da água. Restos meus foram descobertos nos despojos da civilização Badariana, junto ao rio Nilo, história inscrita em lâminas de cobre, deixadas no quinto milênio antes de Cristo.
Hoje, vulgar e tão banal, sinto-me qual um metal gelado, coberto por uma gasta camada de prata, ou amalgamada a mim mesma, constante e previsível, lâmina de qualquer metal barato, depositada sobre minha face pálida de vidro gélido.
Não passo disso: uma superfície plana que se produz em visões virtuais, completamente simétricas de eu mesma. Enatiomorfa: olho-me e só tenho isso a dizer; ofendo-me, então, com palavra tão esdrúxula.
Impossível projetar-me num alvo, nunca poderei morrer. Sigo na frieza de feixes de luz paralelos, sem jamais tocar-me. Sou muitas e nenhuma.
Virtual e reflexa, jamais sentirei a plenitude de estar viva.
(Sirena visita sua imagem, no espelho.)
2 comentários:
Aninha
tão reflexiva, tão gélida...será?
Aonde está tua alegria teu calor tua vibração?
beijão
Lessa
Sirena, e o espelho, reflexão sobre si, o espelho em si...
São temas que me apaixonam também, assim como os falsos espelhos: os olhos e as telas dos computadores...
É saboroso ler-te, vendo-me refletida aí, degusto cada palavra como se pensar fosse paladar: minha cabeça toda saliva!
Beijosss....
Hela.
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