sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Décima quarta visita: da dificuldade de Zen ser.

E lá está Buda, no outro lado da margem, sereno. Eliminada, sem fim, a morte, paixões quebradas, saltou do oceano das misérias para a realização do Nirvana.

“O mundo de destinos miseráveis é comparável a um grande oceano, e os sentimentos e pensamentos dos seres vivos à ausência de margem. Eles são ignorantes e não sabem que as ondas crescentes de inconsciência são as causas da ilusão e das ações kármicas que resultam no ciclo infinito de nascimentos-e-mortes. Seus sofrimentos são inexauríveis e eles são incapazes de atravessar o oceano amargo da mortalidade. Portanto, isto é chamado de à margem.”

Assim, ele fala no seu não falar, silencioso. Assim, ele fala em sua-voz-em-outras, de Han-shan Te ch’ing ou qualquer mestre zen que ilumina.

Então, o homem, nesta margem. Imortal, porém igual, o que é nada, nada arrepio, nada vento no pescoço. Corre atrás de ecos, eles a perseguí-lo, pensa em livrar-se da morte. Ilusão, a vida. Infinito fragmento: estar, inconstante.

“O coração [mente] mencionado é o coração da grande sabedoria que alcança a outra margem. Não é o coração humano que os homens mundanos usam para pensar erroneamente. O homem ignorante não sabe que fundamentalmente possui o coração da luz brilhante da sabedoria.”

O coração mundano continua perseguindo luz. Nada sábio, pensa-se assim. Assim, pensa sentir. Pensando, há somente o mero inchaço de músculos bombando sangue. Do sentimento, apenas reconhecidas as sombras do apego, estimuladas pelas circunstâncias. Assim, pensamentos-sentimentos sucedendo-se, cadeia incessante.

Buda sorri.

“Apenas o Buddha estava consciente da verdadeira sabedoria fundamental que pode iluminar e quebrar o corpo e o coração dos cinco agregados, que são não-existentes e cuja substância é inteiramente vazia. Portanto, ele saltou da aparência e alcançou a outra margem instantaneamente, cruzando assim o oceano amargo."

(Avalokiteshvara, o bodhisattva da verdadeira liberdade. O corpo e os cinco agregados são apenas o vazio).

Buda sereno.

“Após esta realização, onde os sofrimentos não poderiam ser aniquilados? Onde os grilhões do karma seriam algemados? Onde estaria o argumento obstinado sobre o ego e a personalidade, sobre o certo e errado? Onde estaria a discriminação entre falha e sucesso, entre ganho e perda? E onde estariam os embaraços em coisas como riqueza e honra, pobreza e desonra?

Shariputra!

(Este era o nome de um discípulo do Buddha. Shari: pássaro com olhos penetrantes. A mãe dele tinha os mesmos olhos penetrantes e foi chamada com o nome do pássaro. Então o próprio nome dele era o filho [putra] de uma mulher que tinha olhos de shari. Entre os discípulos do Buddha, ele era o mais sábio.)

A forma não difere do vazio, nem o vazio da forma. A forma é idêntica ao vazio e o vazio é idêntico à forma. Assim também são os cinco agregados em relação ao vazio.”

Enganado, o homem no lado de cá, confinado em seu corpo, nada pode quanto ao nascer-morrer, nem quanto ao ir-e-vir. Também não pode quebrar a visão mundana de que a personalidade é permanente. Faz planos para um século sem realizar nada já, nem pode, com corpo ilusório, corpo submisso às quatro mudanças, nascimento, velhice, doença e morte, de momento a momento, sem interrupção, rumo ao resultado último, óbvia constatação de que é impermanente: retornará ao nada. E ainda não terá alcançado o limite da lei fundamental: o vazio absoluto. "A forma não difere do vazio.”

Com a contemplação errada e com a realização resultante de que a forma difere do vazio, o homem persegue trôpego em sua avidez por som, forma, riqueza e ganho, e completo apego às paixões do cinco desejos surgidos dos objetos dos cinco sentidos — às coisas vistas, ouvidas, cheiradas, degustadas ou tocadas.

E lá está Buda. Na outra margem.

“Shariputra, toda a existência é vazia, não há nem início nem fim, nem pureza nem mácula, nem crescimento ou declínio. Portanto, com o vazio, não há forma, não há agregados; não há olho, ouvido, nariz, língua, corpo e mente; não há forma, som, odor, sabor, toque e objeto do pensamento; não há conhecimento, ignorância, ilusão e fim da ilusão; não há sofrimento, declínio, morte, fim de sofrimento e morte; não há conhecimento, ganho e não-ganho.”

O homem do mundo mira a outra margem. Mente cheia, pesa. Anda na beira. Volta. Vai. Homem tropeça. Cai n’água. Esperneia engasgado. Buda mira. Sai da água, homem molhado. Olha ao redor. Ninguém vê – ainda bem – que vergonha. Desiste da água, demais oceano. Volta pelo mesmo caminho. Ego humilhado pesa mais. Mente cheia.

Buda ri. Fecha os olhos. Assim ele fala no seu não falar, silencioso.

(Preso em aspas, falou Han-shan Te-ch’ing. 1576-1623)

2 comentários:

Lehgau-Z Qarvalho disse...

Ana, Ana, que só coisas belas e profundas emana!!! 8)*


E quem é Buda afinal?! Buda é Ana aqui, Buda somos nós ali, acolá... Buda é o ar, as palavras, o café, o chá.

E em ele sendo, nós, que com Buda estejamos todos sempre; agora; daqui a pouco; logo mais, após...

Reges Schwaab disse...

Maravilhoso ver-te um ser postante outra vez.

Oh mani padme hum.

:o)