quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Das visitas às previsões...

O tempo melhora por aqui.
Chegados do oceano mais oriental, sistemas de baixa pressão impulsionam um ar mais frio.
A nebulosidade diminui e o sol reina novemente. Noite fria...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Previsão para hoje

Espírito nublado, com pancadas de chuva, por vezes fortes em áreas isoladas, trovoadas.
(Perigo de desabamento d'alma.)

sábado, 18 de outubro de 2008

Das cinco visitas: memórias de Sirena e Ferdinando - como se fosse hoje.

Bandeira e vulcão.

Um promontório avança, esparrama espumas circundantes, molhadas olas à vida de penhascos, rochas esbofeteadas, violentas, las olas vêm e vão.

O navegante avança, desbrava, feroz guerreiro forjado em Sagres, além-mar.

Atrás dele, oceano. Nos olhos, o cabo, molhada praia, escancarada mata.

A bandeira é fincada, o escudo é soberano.

Lá em cima, olhando tudo, séculos vividos, a lua é outra mata, bandeira americana penetrada, satélite agora azul, vermelho e branco. Lua fincada, astro bandeira pop em um céu de outro século. Olho eterno que tudo fita. Sempre ontem, sempre hoje. Sempre lua e universo.

Sempre o homem branco, pesadas armas, pólvora, pólvora. Canhões, pesadas bolas. Carabinas, escopetas ou mísseis ultra-sônicos. É o homem, seu fogo, suas naves e navios. Explorar, penetrar, Matar ou amar. Alma urgente.

A mata, o promontório explode. Solta faíscas, brada, buraco aberto na terra. Terra farta, sementes molhadas, folhas secas, grandes cuspidas de fogo, labaredas por entre areias, praias, lânguidas ondas que roçam areias, sibilantes espumas que lambem a praia e o calor, insuportável calor.

Fogo de homem e suas armas para fora. Fogo de chão e suas lavas. Por dentro. Maresias, náuseas interiores, vômitos incontidos, impossíveis de engolir.

Grito do homem, de guerra, ancestral. Grito da terra, aberta ferida. Buraco, quente vulcão estraçalhado, lava que arde, salta,tudo cobre, queima areia, evapora espuma, mar que sobe em vapores salgados.

A noite se faz, a lua é rainha, ela e sua bandeira fincada; estrelas, muitas. Brilhos de fogos, incandescentes estrelas, noturnas e efêmeras em sua imensidão secular.

Findam erupções e maremotos. Restaurada a fugaz eternidade, tudo descansa.

Arfantes, seus ventos aquecem seus pescoços. Toda linguagem é cristalina, seja a do olhar com que se olham, ou do luar que a eles vê.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A quarta visita: de Sirena a si - reflexões.

Sinto-me lisa, plana, superficial, apesar de muito refletir.

Vejo-me com a mesma forma e tamanho, por vezes atrás de mim, porém sempre a olhar-me invertida. Raios partem de meus olhos e os atingem, clonados em frente a mim. Como flechas na pele, recebo luzes velozes que percorrem uma trajetória angular. Tenho a impressão que vêm de algo imaterial, minha própria aura em linha reta, mentalmente prolongando os raios refletidos, em sentido contrário, para trás de mim.

Possivelmente teria nascido da superfície da água. Restos meus foram descobertos nos despojos da civilização Badariana, junto ao rio Nilo, história inscrita em lâminas de cobre, deixadas no quinto milênio antes de Cristo.

Hoje, vulgar e tão banal, sinto-me qual um metal gelado, coberto por uma gasta camada de prata, ou amalgamada a mim mesma, constante e previsível, lâmina de qualquer metal barato, depositada sobre minha face pálida de vidro gélido.

Não passo disso: uma superfície plana que se produz em visões virtuais, completamente simétricas de eu mesma. Enatiomorfa: olho-me e só tenho isso a dizer; ofendo-me, então, com palavra tão esdrúxula.

Impossível projetar-me num alvo, nunca poderei morrer. Sigo na frieza de feixes de luz paralelos, sem jamais tocar-me. Sou muitas e nenhuma.

Virtual e reflexa, jamais sentirei a plenitude de estar viva.

(Sirena visita sua imagem, no espelho.)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Visita recomendada - pequeno comercial

Fiz e recomendo.

Foram esta oficina de conteúdo inspirado e o grupo que se formou, de professor e colegas sensíveis e talentosos, que me permitiram dar ao que escrevo um perfil mais metódico, estruturado e criativo. Era o fundamental incentivo de que eu precisava para ter a segurança de compartilhar minhas escrivinhações.

OFICINA INTERATIVA DE CRIAÇÃO DE PERSONAGENS - com Lehgau-Z Qarvalho

QUINTAS-FEIRAS À NOITE (a partir das 19 horas). Com início em 23 DE OUTUBRO. HISTÓRIAS são feitas com e por personagens. São eles o elemento central de todo e qualquer enredo. Portanto, antes de pensar em construir uma boa história, é imprescindível que os personagens sejam muito bem delineados, para que passem a “existir” no imaginário do leitor; e façam da trama uma boa história.

INSCRIÇÕES na PALAVRARIA (Vasco da Gama, 165 – Tel: (51)3268.4260 – Bairro Bom Fim – Porto Alegre – RS) ou lehgauz@yahoo.com.br

http://www.lehgau-z.blogspot.com
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=14292602005679285857

CURSO DE INTRODUÇÃO À ESCRITA LITER[ÁRIA http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=41823733&tid=5254521865350055173&start=1


domingo, 5 de outubro de 2008

Duas visitas: de Ferdinando, sobre si e Sirena.


"As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio".
Franz Kafka, 1917.

I

Ferdinando é o meu nome. Acordei, em meio ao frio, com uma incrível vontade de contar-lhes uma história.

A Melencolia de Dürer é o espelho que mais olho, pois devolve-me a imagem do que sou entre os quatro temperamentos alquímicos, com o necessário cadinho para as operações de fogo e, com ele, o mar, no horizonte.Tenho uma inclinação para longas viagens, contraditória forma de entrar em mim. Desta ânsia por trilhar caminhos longos, andei por oceanos buscando meu centro, com minha lava necessitando rescaldo nas águas infinitas que ligam mundos.

Atravessando o Atlântico encontrei Sirena.

Talvez, como Ulisses, devesse tapar meus ouvidos com cera e acorrentar-me ao mastro do navio. Talvez, assim, ela deslizasse, em seu silêncio, voltasse para suas profundezas.

Ah! Esquecia, ou para não afugentá-lo, meu tolerante leitor, omitia: Saturno é o meu planeta, aquele da revolução mais lenta, melancólico planeta. Tenho a inconveniente mania de olhar para dentro, o que é igual a encontrar dúvidas. Às vezes, desespero.

Hipócrates diria que ando em discrasia, já que Saturno tem me atormentado, fazendo com que meu baço secrete esta negra bílis que corre por minhas veias. Dessa mistura de sangue e negra bílis, meu organismo encontra-se febril, numa temperatura suficiente para cozer meu estado corporal. Ardo, então.

Eis minha síntese: álcool sou, onde a combinação dos princípios irreconciliáveis do fogo e da água, pode, enfim, ser atingida. Frescor e ardência, sendo que administrar esta alternância é minha rotina e luta, por meio das buscas de caminhos longínquos ou vestindo minha capa opaca, tecida nas moléculas do carbonato de lítio.

Mas dizia-lhe, atencioso leitor, que em minhas andanças, encontrei Sirena.

II

Pele clara, tinha um “eu-sei-muito-bem-o-que” de promessa nos olhos, cabelos curtos e compridos.

Andava com passos leves, parecia voar. O seu signo era o décimo primeiro do zodíaco, situado entre Capricórnio e Peixes e associado à constelação de Aquarius.

Talvez por ter nascido junto ao mar, era o que era; talvez porque assim destinassem seus astros.

Tinha a mania de conceituar e explicar o universo. Parecia entendê-lo perfeitamente. Como também diziam dela – e de seu signo – tinha profundo respeito e amor pela liberdade, cooperação com a humanidade e um olhar criativo para o devir. Signo de ar. Daqueles que chegam ao fundo de si pela comunicação perfeita com o mundo. Mas tropeçam e quebram coisas pelo caminho.

Sua cor era azul e sua pedra, água marinha. Suas partes do corpo mais sensíveis: tornozelos e sistema nervoso.

Sim, confirmando as previsões astrológicas, ela era leve – tinha corrido muito e fazia isso sempre, primeiro percorrendo quilômetro de areias e chutando as ondas, depois correndo mundo como um Mercúrio com asas nos pés – e um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que era serena e plena de maresia, também vivia tempestades por dentro. Fortes ondas, naufrágios e pedaços jogados às pedras.

Dizem que isso a tornava assim, imprevisível. Vertia pérolas e conchas coloridas quando falava, mas serpentes marinhas em alguns momentos de silêncio. E elas saiam pelos olhos: queimavam algumas vezes.

Dizem, também, que isso a levou de nós. Suas tempestades por dentro. Seus maremotos incontroláveis. Tsunamis.

Certa vez andava eu pelo mundo, não lembro se ainda acreditava em sereias, e ela estava lá, na minha frente. Jamais voltaria a duvidar de que elas existissem.

Estava em Toledo, visitava a casa de Domenikos Theotocopoulus, El Greco.

Ela apareceu por perto, descendo uma viela de pedras amarelas. Me perguntou qualquer coisa, seu espanhol era muito ruim e sua voz, encantadora. Sim, literalmente. Um canto de sereia que me tirou de mim, mergulhei em suas marinhas profundidades. Naufraguei, tornei-me um casco de navio no fundo dela.

Bem, ela perguntou coisa qualquer, eu respondi coisa qualquer, só queria ouvi-la, precisava ouvi-la, enlouqueceria se não a ouvisse. Ela se ia, e meu destino de leão de fogo, filho do sol, era rastejar a seus pés, segui-la incodicional e loucamente.

Primeiro foi sua voz, depois seus cabelos, então longos – sim, ela os deixava crescerem muito, depois os cortava, a surpreender a todos. Sempre assim: longos e repentinamente curtos, previsivelmente assim, surpreendentemente assim.

Doido náufrago a segui, fiz seu roteiro, olhamos ambos para a Toledo sombria e plúmbea de El Greco. Ela olhava para aquele genial tormento e as lágrimas caiam, tremia um pouco, me parecia. Aquele era o sinal, percebi como deveria ser por dentro. Ou nada notei? Ora, um homem enfeitiçado não tem esse discernimento.

De lá, continuei a segui-la e foi entre armaduras e espadas que voltei a falar com ela. E nunca mais parei. Porque não podia deixar de ouvi-la. Jamais. Minhas falas só eram deixas para as suas. Sempre.

Ficamos juntos. Paramos na murada medieval, olhamos o rio em volta de Toledo. Seguimos adiante, íamos e vínhamos, eu sempre atrás dela, espadachim servil, Leão de Espanha domado em uma coleira dourada. Foi o que restou de meu brilho.

Certo dia, após uma noite em que mais uma vez tive orgasmos de me enroscar em seus cabelos, ela os cortou. Simples assim, cortou. Curtos, muito curtos, minimamente assim, curtos. Assim surpreendia, assim previsivelmente surpreendia, cada vez em que muitas vezes os cortava.

Então a seguia, mundo afora, mas nossa casa era lá, junto ao mar.

Eu, afogado desde o início.Ela, mar imenso, sereno a me afagar, maremoto a me matar.

Um dia, ela percebeu isso. Isso: que meus olhos tinham uma febre mortal por dentro. Amarela. Olhou para mim, ternamente. Nenhuma serpente nos olhos, mas nada falou.

Foi. Simplesmente assim, tão simples assim, se foi, assim, me deixou, assim. E eu, naquela casa. Só, naquela casa.

Pequena casa, em frente ao mar. Infinito mar, assim, grande demais. Incontável e incontido mar. Indomável mar. Indecifrável mar.

Uma visita de Sirena

Sirena, a lua,o mar, os outros.

Lua crescente, quase cheia.

Cada vez que chego perto do mar, alguma coisa me chama nele, sei que um dia serei dele, seremos um, eu e mar, mar Sirena, Sirenamar.

Girar mundo pelo mar. Bem, basta a Terra, já que ir até a lua vai demorar um pouco mais. E deve ser muito chato por lá. Isso eu vou fazer: girar a Terra inteira, pelo mar! Poderia ir nadando, mas barcos e navios são confortos que me atraem. Voar também é uma possibilidade interessante, talvez pra quebrar algum galho. Mas o mar... Ah,o mar...

Só trocaria viagens marítimas por viagens de guarda-chuvas. Mas eles não me levam muito longe: daqui para ali, só isso.

Nossa, isso foi um grito? Foi um grito! O barulho vem do mar!

Tá, rápido, Sirena, corre, putz, não vejo nada, só queria ver o que está acontecendo, que escuro, nossa, tem gente lá dentro d’água, ai, é lá, não posso ir, sabe lá o que está acontecendo, ai! Água gelada! (pensa que ela não gostou? Adora este arrepio...) Ai, que medo, Deus me ajude, que eu faço, putz, vou lá, azar, vou lá, saia que me incomoda, droga, ai,ai.

(Prazer, medo e prazer, água fria, mão do mar, leva a sereia, leva a sereia...)

Pessoas, sim, são duas, barulho, água, sufoco, movimento, engasgue, AFOGAMENTO!

(Seus olhos enluarados já vêem claramente; seu corpo precisa ir, ela precisa fazer alguma coisa.)

- Pára! Larga! Laarga!

- Sai daqui!

- Solta!

(Luta, Sirena ataca: homem forte x mulher frágil. Muda o foco: pessoa sendo afogada – mulher 1- foge, busca a praia. Sirena – mulher 2 – quase afogada.)

- Maria! Vem cá! ( Muda o foco: homem segue mulher 1; mulher 2 abandonada no mar)

Meu mar... Me leva... Quem sabe agora me torno espuma, quem sabe água, quem sabe sal...

( Não adianta, Sirena ainda não é seixo, nem concha, nem peixe: o mar, suave, a devolve `a areia.)

Ai, dói tudo, ai,olha lá, são os dois! Se abraçando. É ela! Está abraçando o canalha! Ah, não! Vou lá!

- Escuta, ‘ta’ consolando o canalha?

- É o meu marido, não é canalha!

- Como assim? Ele estava tentando TE MATAR!

- E o que tu estavas fazendo lá na água?

- EU?! Tu tentavas matá-la, o que tu achas que EU estava fazendo lá?

- Qual é a tua, garota, que história é essa de ‘te meter’ em nossa vida?

- Vem, meu amor, vamos embora! Eu cuido de ti. Tem gente louca por aqui!

Os cabelos dela parecem cracas.

( Sai o casal. Sirena, pasma.)

Lua, lua, me busca, lua. Selenitas também serão assim?

Bela lua... Assim morrem as mulheres, nas mãos dos homens que protegem...

( Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 2008: “Corpo de mulher, carbonizado, é identificado pelo marido.”

A foto: marido desolado.Sirena sente um arrepio percorrendo sua coluna.

Do início das visitas.

Agradeço a Magda Nunes pelo uso da imagem dos pezinhos, de quando andávamos pelo Uruguai.

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