segunda-feira, 25 de maio de 2009
Vigésima quinta visita: Sirena em fuga
Frágil Fortaleza.
Areia. Para os lados. Cada olhar dirigido, muitos grãos indefiníveis. Em frente, o mar.
Nos últimos minutos, somam-se algumas batidas de asas, as gaivotas voam muito próximas, é como se ela nem estivesse presente, talvez já fosse invisível, talvez Afrodite ao avesso, não nascendo das espumas do orgasmo de Zeus, quem sabe virada em onda.
Cada lambida do mar torna seus pés mais murchos, no processo de virar espuma. Salgada espuma escorrida na areia. Cada punhado pinga por sua mão e mais uma torre está pronta. Construção abençoada por Gaudí, condenado castelo que combina com o que deixou: sopro, inconsistente vida.
Existe algo que permanece constante. Insistente, recorrente, consistente: lembrança. Só o que move seus pulsos (ainda pulsam), só o que permite que junte areia.
Lembra que andou pelo mundo, que o encontrou em um castelo, aquele que foi seu Rei , mas também sua armadura, que precisou sumir, que não podia fugir de seu destino de sereia. Ser espuma, ou ser areia. Também não esquece dos olhos nublados da maresia que ela provocava. Aqueles que eram febris: por ela, por ela, por ela. Aqueles que já eram dela.
Ela se foi. Sirena abandonou seu reino cercado de muralhas, protegido dos perigos, no alto da montanha. Sirena se foi. Abandonou aqueles braços, tão seus em torno de si, tão fortes a afastá-la do medo, e as pernas que já andavam por ela.
Agora é só areia. Além, oceano.
A mulher levanta, tudo está feito, dá as costas ao mar. Não é espuma, tem pernas fortes, ajeita a mochila nas costas e segue a claridade das luzes que já aparecem, nem tão longe. Pegará o próximo ônibus, qualquer lugar que não o mesmo.
Tem uma onda bem forte que dissolve a fortaleza. Resta uma torre. Alguém, dentro, acompanha os pés, as pernas que se afastam.
Um rei fecha seus olhos, engole seco. Areia.
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6 comentários:
"Tem uma onda bem forte que dissolve a fortaleza."
Sempre.
E um verdadeiro coração tem imensidão de mar-oceano. Palavreia em ondas, obedece os mandos da lua, recolhe grãos e águas de todo canto, cantam nele, sereias a derrubar barcos. Nunca nada, literalmente tudo.
"Palavreia em ondas, obedece os mandos da lua, recolhe grãos e águas de todo canto, cantam nele, sereias a derrubar barcos. Nunca nada, literalmente tudo.'
Isso é você, Reges. Emocionando literalmente tudo.
Gracias,amigo. Alegria ser tua parceira nestas aventuras de escrever.
Lindos!
Tanto o texto, como o comentário do Reges. Sem mais adjetivos superfluos...
Também vou me omitir de comentar. Não precisa. Palavreio em ondas.
palavreio em ondas... isso é música! A música da vida, a vida é música!
beijinhos admiradores
"...que não podia fugir de seu destino de sereia. Ser espuma, ou ser areia..."
Isto é Ana; na veia!
8)*
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