segunda-feira, 11 de maio de 2009

Vigésima terceira visita - sobre dedos, agulhas e bonecas



Era uma vez eu, uma guria criada no interior, que soltava as tranças depois da aula e ficava pelas ruas, casas dos primos, pulava muros, andava por terrenos baldios e subia em árvores. Jogava bola com os guris no meio da rua na frente da casa das tias. Percorria pomares e hortas, aprendia a fazer doces no tacho, no pátio das casas antigas. Tinha uma tia que mexia o doce de uva ou marmelo, fumegante. Ela era uma bruxa boa com seu nariz comprido e avental surrado.

Era uma vez certas brincadeiras infantis, pelos pátios e hortas das ruas do interior, onde muito corri sem hora para chegar em casa (a palavra que me vem neste momento, como definição da minha infância, é li-ber-da-de).

Era uma vez brincar de casinha ou nave espacial (a TV da minha infância era cheia de Perdidos no Espaço e Jornada nas Estrelas), ser diretora de cinema, com câmera de mentira na mão e umas mil idéias na cabeça, nos cenários de florestas perigosas ou cidades do velho oeste. Era bom fazer bebezinhos com as morangas de pescoço ou - elas - as bonequinhas de pano que aprendi a montar com minhas parentes mais velhas. As sobras das costuras eram recortadas e os pontinhos à mão, bem tortos, faziam viver as bonecas mais amadas que eu já tive. E das quais lembro com detalhes de cor, cabelos de lã, bocas bordadas.

Nelas estava todo o mundo das minhas antepassadas, das mulheres italianas, tias e avós que faziam meus vestidos e me ensinavam a criar brinquedos. Tudo era afeto, carinho, presente.
Aprendi a juntar , sem nenhuma técnica apurada, os paninhos da criancice.

Hoje retomo um pouco disso nas bonequinhas que eu e duas amigas fazemos. As “Vududolls”, frutos do imaginário que cada uma de nós reuniu em sua história.

Nos encontramos para costurar, coisa mais antiga. Coisa mais querida. Coisa boa, retomar aquele prazer. E, nos raros espaços de tempo que a vida adulta nos permite, vamos costurando e conversando, rindo e fazendo projetos.

Enquanto costuramos com carinho, o velho mundo das mulheres corre pelos nossos dedos.


Veja nossa coleção em:

4 comentários:

clau disse...

A vida corre por nossos dedos...
Tá lindo Aninha, parabéns pelas "Vududolls" e pelo dia a dia que corremos a vida, entre dedos e veias a tecer vudus.
Mil beijos

Reges Schwaab disse...

Eu acho o título e a descrição do teu blog extremamente interessantes. Venho aqui e fico lendo e relendo. Sentidos vários, possibilidades que só a escrita e seu exercício nos possibilitam, na exposição, oposição, aceitação, transformação.

Cláudia Goulart disse...

A vida corre por nossos dedos...
Tá lindo Aninha, parabéns pelas "Vududolls" e pelo dia a dia que corremos a vida, entre dedos e veias a tecer vudus.
Mil beijos

Cláudia Goulart disse...

Pronto, acho que agora aprendi a postar comentários.
bjos, bjos
valem os dois e este também

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