segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Inicia 2012. Visita constante do tempo - "Inseto Perseverante".

Eu, guria, em alguma praia da memória.

Chega o momento em que confrontar-se com a própria verdade temporal é inevitável. 
Basta passar em frente ao espelho, ou encontrar um velho amigo não visto há anos. 
Primeiro pensa-se: - Nossa, como envelheceu! - sem nos darmos conta de que somos o seu espelho, no qual ele se mira com o mesmo espanto.
Eis que tenho em mãos um livro do antropólogo Joël Candau e me deparo com este trecho do preâmbulo do seu "Memória e Identidade". Então entendo porque tenho tido tanta necessidade de remexer em velhas fotos.

"Somos sempre "condenados ao tempo", condição à qual não escapa nenhuma existência. O tempo "voraz" que segundo a segundo, como um inseto perseverante (Maeterlinck), devora mecânica e inexoravelmente toda vida, realizando assim sua obra de decomposição: o tempo presente, agonizante por essência (Borges inspirado em Aristóteles e Santo Agostinho) prestes a desaparecer no passado no momento mesmo em que anuncia o futuro. O fluxo do tempo, por essa razão, ameaça os indivíduos e os grupos em suas existências. como parar esse tempo devastador, essa "corrida desabalada", como evitar seu trabalho "incoerente, indiferente, impessoal e destruidor", como se livrar da "ruína universal" com a qual ameaça toda a vida?
A memória nos dará esta ilusão: o que passou não está definitivamente inacessível, pois é possível fazê-lo reviver graças à lembrança. Pela retrospecção o homem aprende a suportar a duração: juntando os pedaços do que foi numa nova imagem que poderá talvez ajudá-lo a encarar sua vida presente. De acordo com Santo Agostinho, "o espírito é a memória mesma". Buñuel dizia que era preciso perder a memória, ainda que parcialmente, para se dar conta de que é ela que "constitui a nossa vida". O conhecimento de si, observa Jean-Yves Lacoste, "leva consigo, necessariamente, os caminhos de uma memória de si mesmo". Mnemosyne, a "chave da consciência", é , portanto, uma fonte primordial para o que chamamos de identidade: "Memory make us, we make memory".
A memória, ao mesmo tempo em que nos modela, é também por nós modelada. Isso resume perfeitamente a dialética da memória e identidade que se conjugam, se nutrem mutuamente, se apoiam uma na outra para produzir uma trajetória de vida, uma história, um mito, uma narrativa. Ao final, resta apenas o esquecimento."


Salvador Dali, A Persistência da Memória

2 comentários:

Reges Schwaab disse...

Memory make us, we make memory.

Visitar aqui é sempre imenso.

Bjs

Ana Lúcia Pompermayer disse...

Tua visita é imensa.

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